Irã acusa Ocidente de instigar protestos contra resultado de eleições

Javier Martín. Teerã, 8 ago (EFE).- O Irã voltou hoje suas críticas em direção ao Ocidente na segunda audiência do julgamento de mais de 100 acusados de fomentar e participar dos protestos que se seguiram à reeleição do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.

EFE |

Se na sessão realizada na semana passada a Promotoria centrou as acusações em figuras do reformismo, como o ex-vice-presidente Mohammad Ali Abtahi, hoje apontou para aqueles aos quais considera agentes de países estrangeiros.

Na sala estavam presentes a jovem professora francesa Clotilde Reiss e de dois cidadãos iranianos, Nazak Afshar, empregada local da embaixada francesa, e seu compatriota Hussein Rasam, que trabalha no escritório político da delegação britânica.

Em direção a eles apontou grande parte da ata de acusação lida pela Promotoria, que afirmou que eles colaboraram com embaixadas estrangeiras em um plano para derrubar a República Islâmica através do que chamou de "revolução de veludo".

Segundo o texto, reproduzido parcialmente pela agência de notícias local "Irna", os processados participaram "de atos criminosos organizados e planejados", cujo objetivo era perturbar a ordem pública e a segurança "com ajuda estrangeira".

Esses Estados estrangeiros, "que de forma hipócrita defendem os direitos humanos, utilizam seus meios de comunicação para coordenar sua diplomacia contra o Irã", afirmou o texto.

"Tentaram desestabilizar o país apoiando os reformistas, aos quais financiaram para provocar um racha entre o povo e seus representantes", seguiu o comunicado.

"Formaram ONGs e jornalistas e ativistas dos direitos humanos para que infligissem dano à imagem externa do Irã com sites" e outros instrumentos, prosseguiu o texto.

A Promotoria apontou diretamente para o Reino Unido, país ao qual acusou de planejar os protestos com meses de antecedência.

"Muito antes das eleições presidenciais de 12 de junho, a embaixada do Reino Unido no Irã tentou se aproximar de certas figuras políticas no interior do Irã para poder alcançar seus objetivos", denunciou a acusação.

"A seção política coletou informação sobre responsáveis iranianos, a Guarda Revolucionária e as milícias Basij. Formou grupos de trabalho, e diplomatas e empregados locais viajaram às províncias. Igualmente os enviou aos protestos", acrescentou o texto.

"O objetivo era mudar a opinião da sociedade iraniana, se infiltrar entre as camadas sociais e enfraquecer o Governo para tentar derrubá-lo", afirmou.

Após a leitura da ata, o Tribunal Revolucionário ouviu as alegações de alguns acusados.

A "Irna" informou que a francesa Clotilde Reiss teria admitido o envio de um relatório à embaixada da França em Teerã sobre os distúrbios na cidade iraniana de Isfahan e pediu perdão por isso.

A jovem, de 24 anos, confessou ter enviado o trabalho "ao responsável do Instituto de Pesquisas francês no Irã, subordinado ao serviço cultural da embaixada francesa".

Reiss também teria admitido ao juiz que sua participação nos protestos foi por "razões pessoais".

"Aceito que foi um erro e peço perdão à nação iraniana e à corte.

Espero que me perdoem", acrescentou.

Reiss, professora de francês na universidade de Isfahan, foi detida em 1º de julho no aeroporto internacional de Teerã quando tentava sair do país.

Junto a ela compareceu Nazak Afshar, empregada local da embaixada francesa, que, segundo a "Irna", teria confessado que a delegação instruiu os funcionários a dar "cobertura aos manifestantes" se fosse necessário.

Outro que depôs foi Hussein Rasam, contratado local da embaixada do Reino Unido, acusado de conspiração e espionagem.

Segundo a "Irna", Rasam, detido em junho com outros oito colegas de trabalho depois libertados, confessou que o elenco da embaixada esteve presente nos protestos por ordem da delegação.

Também compareceram neste sábado outros ilustres opositores como o jornalista Ahmad Zeid Abadi e o ex-deputado Ali Tajerani, membro do partido aberturista Frente islâmica de Participação, acusados de conspirar e instigar a violência.

Sob as mesmas acusações depuseram Hedayat Aqaie, membro da plataforma Kargozaran Sazandegi, e Shahabudin Tabatabaie e Javad Emam, responsáveis do escritório eleitoral do principal candidato opositor derrotado, Mir Hussein Moussavi.

A oposição iraniana, que afirmou que os resultados das eleições tinham sido fraudados, qualificou o julgamento de "mascarado" e questionou as confissões. EFE jm/db

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