Irã acusa estrangeiros de conspiração com o Ocidente

Por Zahra Hosseinian e Parisa Hafezi TEERÃ (Reuters) - Um tribunal iraniano declarou culpados neste sábado uma francesa, dois iranianos que trabalham nas embaixadas da Grã-Bretanha e da França em Teerã e dezenas de outras pessoas por espionagem e por colaborarem com uma suposta tentativa ocidental de derrubar a liderança clerical.

Reuters |

A presidência da União Europeia disse em comunicado o julgamento é uma ação contra todo o bloco.

Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores britânico, David Miliband, condenou o julgamento do funcionário da embaixada da Grã-Bretanha, dizendo que as acusações são injustificadas e trazem descrédito ao Irã.

Miliband disse que recebeu apoio da França.

"Nós temos reafirmado nossa solidariedade diante da mais recente provocação iraniana", disse o ministro.

Mais cedo, a Grã-Bretanha já havia classificado o julgamento como um "ultraje", alegando que foram rompidas as garantias dadas por autoridades iranianas após o funcionário britânico --o analista político Hossein Rassam-- ter sido libertado com pagamento de fiança.

"Estou profundamente preocupado com as acusações injustificadas atribuídas a Hossein Rassam em Teerã", afirmou Miliband.

Esse foi o segundo julgamento em massa realizado para extirpar a oposição moderada e encerrar os protestos que irromperam após a eleição de 12 de junho.

Pelo menos 26 pessoas foram mortas e centenas aprisionadas na violência pós-eleição. Os moderados dizem que o pleito foi forjado para que o presidente Mahmoud Ahmadinejad vencesse, mas as autoridades dizem que foi a eleição "mais saudável" desde a Revolução Islâmica de 1979.

A eleição e os protestos mergulharam o Irã em sua maior crise interna em 30 anos, expondo profundas divisões dentro do establishment clerical no poder.

O empregado da embaixada britânica, Hossein Rassam, foi acusado de espionagem e confessou ter entregue informação sobre os distúrbios a Washington, disse a Irna.

"Ele se desculpou à nação iraniana e pediu que a corte o perdoasse", informou a agência.

A cidadã francesa Clotilde Reiss foi acusada de "agir contra a segurança nacional tomando parte de distúrbios, coletando notícias e informações e enviando imagens dos distúrbios para o exterior", informou a agência de notícias estatal Irna.

Espionagem e atos contra a segurança nacional são passíveis de pena de morte sob a lei islâmica do Irã.

Reiss confessou seus "erros" e pediu clemência, relatou a Irna.

Reiss está detida na prisão de Evin, em Teerã, desde que foi presa em um aeroporto da capital no dia 1o de julho, sob acusações de espionagem, enquanto tentava deixar o Irã depois de passar cinco meses na cidade de Isfahan, no centro do país.

A televisão mostrou Reiss, vestindo um chador preto islâmico e um véu, sentada na primeira fila do tribunal. Não estava claro se ela tinha um tradutor quando a acusação foi lida.

O esquadrão de choque da polícia usou força para conter os protestos dos familiares do lado de fora do tribunal.

"Os parentes dos réus e um grande grupo de pessoas se reuniram a frente do prédio do tribunal no sábado. Quando entoaram 'Allahu Akbar' (Deus é o maior), o esquadrão de choque os atacou para dispersar a multidão", informou o site reformista Mosharekat.

FRANÇA

A França rejeitou a acusação contra Reiss como "infundada" e o presidente Nicolas Sarkozy pediu sua soltura imediata. O Ministério das Relações Exteriores da França disse no sábado que não iria fazer comentários sobre Reiss no momento.

"Escrevi um relatório de uma página sobre a situação em Isfahan e o entreguei à seção cultural da embaixada francesa", teria dito Reiss no tribunal de acordo com a Irna.

Em um julgamento em massa no sábado passado, mais de cem reformistas, incluindo várias figuras proeminentes, foram acusados de violações que incluem atos contra a segurança nacional através do fomento aos distúrbios pós-eleição.

Lideranças moderadas, incluindo os candidatos derrotados Mirhossein Mousavi e Mehdi Karoubi, desafiaram o líder supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, que apoiou oficialmente Ahmadinejad. Eles dizem que o novo governo que Ahmadinejad vai formar é ilegítimo.

Políticos pró-reforma denunciaram os casos julgados como "julgamentos-espetáculo," dizendo que as confissões foram obtidas sob coerção.

O Irã acusa o ocidente, em especial os EUA e a Grã-Bretanha, de fomentar a confusão depois da eleição de junho em uma tentativa de derrubar o sistema clerical. Os dois países negam a acusação.

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