O acirramento da crise financeira, a partir de setembro, não foi suficiente para prejudicar os investimentos de empresas brasileiras no exterior no acumulado do ano.

Segundo dados do Banco Central, as companhias nacionais investiram, em 2008, US$ 20 bilhões lá fora - número 185% maior do que o registrado em 2007.

O resultado é o segundo melhor da série histórica do BC, que começou em 1968. O maior volume foi obtido em 2006: US$ 28 bilhões.

Os dados se referem ao investimento direto. Também chamado de "produtivo", o número inclui, por exemplo, a compra total ou parcial de uma empresa no exterior. Remessas de lucro ou empréstimos a companhias no exterior ficam de fora da conta.

Entre as operações que contribuíram para o bom resultado de 2008 está o investimento que a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) fez em uma de suas subsidiárias no exterior, via Panamá, no valor aproximado de US$ 3 bilhões.

Outro exemplo é a expansão da Camargo Correa em Angola, onde a empresa está construindo um condomínio residencial no valor total de US$ 110 milhões.

Redução

Este ano, porém, a previsão é de que os investimentos de companhias brasileiras no exterior sofram uma redução.
Pela estimativa da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), o volume de Investimento Brasileiro Direto (IBD) deve cair 25% este ano.

"A crise dificultou o acesso ao crédito e fez aumentar os juros bancários (spreads), dois fatores que atrapalham o processo de internacionalização das empresas, não só das brasileiras", diz Luís Antônio Lima, presidente da Sobeet.

Apesar da previsão de queda este ano, Lima acredita que a expansão das empresas brasileiras no exterior não será interrompida. "Estamos falando de um processo duradouro. E a participação dos emergentes tende a aumentar, não só como destino de investimentos, mas também como origem", diz.

Lima prevê ainda que a fatia de empresas brasileiras no mercado internacional deverá aumentar este ano. "Se por um lado teremos queda no investimento brasileiro, a expectativa é de que essa redução seja ainda maior entre os outros países, em função da crise".

Consolidação

A redução da demanda mundial terá ainda um outro impacto nesse processo. Para o economista Álvaro Cyrino, da Fundação Dom Cabral, haverá uma pressão maior para que esses últimos investimentos comecem a dar retorno.

"Após um período de fortes investimentos, essas operações no exterior terão de apresentar resultados. As subsidiárias lá fora terão de andar com as próprias pernas", diz Cyrino.

Para ele, a crise terá impactos diferentes, dependendo do porte da empresa. "As maiores não têm como voltar atrás. Empresas como Vale e Gerdau, por exemplo, já estão mais lá fora do que aqui", diz.

A avaliação do professor Celso Cláudio de Hildebrand e Grisi, da Fundação Instituto de Administração (FIA), é de que existe um "desestímulo" aos investimentos brasileiros no exterior - pelo menos no momento.

Segundo ele, as empresas brasileiras não se internacionalizaram "por mérito da globalização", mas sim para buscar um cenário empresarial mais favorável aos seus negócios. E, com a crise, terão de reavaliar os projetos.

"As companhias saíram em busca, principalmente, de juros menores e também de uma legislação trabalhista menos proibitiva", diz. Isso sem falar que o real valorizado não favorecia as exportações de seus produtos".

Destino

Com base em dados do Banco Central, a Sobeet estima um número de 877 empresas brasileiras atuando no exterior. O estoque de capitais brasileiros em outros países ultrapassa os US$ 100 bilhões.

Já o destino final desses investimentos não é possível saber ao certo. Isso porque muitas empresas brasileiras preferem enviar o capital, primeiro, para os chamados paraísos fiscais - de onde, aí sim, saem os investimentos.

O professor da Fundação Dom Cabral diz que a América Latina tem sido o principal destino final desses investimentos, mas que operações recentes nos Estados Unidos também vêm contribuindo para o aumento do volume total.

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