Investigação sobre massacre confronta forças políticas bolivianas

LA PAZ - A missão da União de Nações Sul-americanas (Unasul) que investiga a morte de 20 camponeses bolivianos ocorrida em setembro passado, em Pando, afirmou nesta quarta-feira que o incidente se tratou de um massacre planejado, enquanto a oposição acusou essa comissão de atuar com parcialidade.

EFE |



O coordenador da missão da Unasul, o argentino Rodolfo Mattarollo, disse, no ato de entrega do relatório ao Governo boliviano, que foi cometido um crime de lesa-humanidade e recomendou que os responsáveis tenham um julgamento ordinário.

O documento entregue ao presidente Evo Morales é fruto de uma investigação solicitada pelos países-membros da Unasul reunidos em meados de setembro no Chile, após o massacre registrado no dia 11 desse mesmo mês em Pando, em meio a uma onda de protestos de opositores.

Após a apresentação do relatório, dirigentes dos partidos da oposição Poder Democrático e Social (Podemos) e União Nacional (UN) criticaram a missão por atuar com "parcialidade", já que não se menciona a suposta responsabilidade do Executivo boliviano no incidente.

Em seu discurso, Mattarollo disse que a investigação registrou a morte de 20 camponeses, apesar de ter ressaltado que, por enquanto, o número definitivo de vítimas não pode ser confirmado.

O ex-subsecretário de Direitos Humanos da Argentina disse que os agressores dos camponeses estavam organizados e respondiam "a uma rede de comando que contava com funcionários e bens do Governo departamental (de Pando) a serviço de uma empresa criminosa".

A comissão disse, além disso, que dois funcionários do Governo de Pando morreram a tiros na manhã de 11 de setembro e que, por essa razão, pediu às autoridades judiciais da Bolívia "sua investigação exaustiva e a sanção correspondente".

Ele destacou que foram cometidos delitos comuns "que devem ser julgados pela Justiça ordinária" e não em um julgamento de responsabilidades, como pediu a defesa do ex-governador regional de Pando Leopoldo Fernández.

Fernández, detido desde setembro passado em uma prisão de La Paz, foi acusado pela Promotoria de genocídio, delito que na legislação local se aplica também a "massacres sangrentos".

O relatório da Unasul diz ainda que se "desencadeou uma clara perseguição de um grupo com identidade própria fundado com motivações raciais, nacionais, étnicos, culturais e sociais" em Pando, embora Mattarollo tenha declarado que não pode dizer se tratou-se de um genocídio ou não.

Por outro lado, o líder boliviano reiterou que o ocorrido em Pando foi um "genocídio" protagonizado pela oposição, que pretendia "castigar" os povos indígenas por pedirem terras.

Morales disse ainda que esses fatos devem servir para que haja "uma profunda reflexão" no país e que se promovam mudanças na justiça nacional, e pediu à missão de Unasul que acompanhe uma segunda etapa das investigações dos assuntos ainda não esclarecidos.

Mattarollo pediu, além disso, que se aprofundem as investigações sobre execuções sumárias de crianças, cemitérios clandestinos e o destino de pessoas cujo paradeiro se desconhece, fatos que segundo ele, foram denunciados pelos habitantes de Pando.

O relatório foi rejeitado pelos dirigentes dos partidos opositores da Bolívia, que o classificaram como parcial.

"Este é um relatório parcial, de gente que é paga por Hugo Chávez, com a única intenção de confundir mais o país", argumentou o senador Roberto Yáñez, do Podemos.

Para o deputado da UN Arturo Murillo, "há uma parcialidade" no documento que, segundo ele, "não estende sua visão às pessoas ligadas ao Governo".

A oposição boliviana disse várias vezes que o governo Morales também é responsável pelos fatos porque, na sua opinião, organizou os camponeses para que enfrentassem Leopoldo Fernández.

No entanto, Mattarollo disse à imprensa que nas declarações recolhidas junto aos que apoiam o Governo e líderes cívicos de Pando não foram encontrados pontos que eximissem a oposição de culpa.

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