Investigação levanta suspeitas sobre antidoping em Pequim

Uma investigação da BBC apontou que existem dúvidas sobre a eficiência de um importante exame antidoping a apenas duas semanas dos Jogos Olímpicos de Pequim. A investigação observou indicações de que os laboratórios estão classificando testes positivos para EPO (eritropoeitina), uma droga usada para aumentar o desempenho, como negativos.

BBC Brasil |

Algumas amostras foram descritas como suspeitas, o que aumenta o temor de que nenhuma medida será tomada.

Um especialista em drogas usadas no esporte afirmou à BBC que muitos dos finalistas nas provas de resistência da Olimpíada vão usar a EPO.

Rasmus Damsgaard, que administra o programa antidoping para a Federação Internacional de Esqui e para a Equipe de Ciclismo Astana, afirma que tem provas claras de que exames que deram positivo para EPO foram declarados negativos ou apenas suspeitos.

No início de 2008, ele enviou cinco amostras de esquiadores para a Agência Mundial Antidoping (WADA). Todos voltaram com o resultado negativo.

Quando exigiu a impressão eletrônica na qual a determinação de positivo ou negativo foi feita, Damsgaard observou o que afirma ser prova clara do uso de EPO.

"Era muito óbvio que as impressões não eram naturais, ou muito diferente das distribuições naturais", diz. "Mas também vi que foram declarados negativos porque não preencheram os critérios da WADA para um exame positivo. Apesar de parecerem suspeitos, ainda foram todos declarados negativos."
Mais exames
Damsgaard afirma que existem muitas outras amostras como as que enviou nos laboratórios da WADA.

"De um trabalho pequeno com muitos perfis sangüíneos, encontrei talvez cinco positivos", diz. "Imagino que talvez centenas, até mesmo milhares de amostras positivas para EPO estão nos laboratórios credenciados da WADA."
O professor Bengt Saltin, especialista em exames antidoping e vencedor de um dos mais importantes prêmios científicos do Comitê Olímpico Internacional, afirma que o novo critério da WADA permite que os usuários da EPO não sejam descobertos.

"A razão de eu estar um pouco preocupado com toda a situação é que vi muitas amostras suspeitas que estão claramente anormais", afirmou.

O número de atletas processados pelo uso de EPO caiu de forma significativa, dois terços entre 2003 e 2006.

Sydney
O exame para a detecção da presença da EPO foi introduzido nos Jogos Olímpicos de Sydney em 2000. Mas, logo depois, um crescente número de atletas já estava questionando na Justiça os resultados dos testes.

Vários deles, como a ex-atleta americana Marion Jones, ganhadora de três medalhas de ouro na Olimpíada de Sydney, tiveram o primeiro exame considerado positivo, mas foram inocentados no segundo teste.

Em resposta, a WADA tornou os critérios para o exame mais severos, diminuindo o número de recursos. Mas, segundo os especialistas consultados pela BBC, os atletas continuam abusando da EPO.

Apesar das dúvidas, Olivier Rabin, diretor científico da WADA, diz que está "razoavelmente confiante" de que os exames vão flagrar os trapaceiros.

"Seria muita presunção de minha parte afirmar que temos 100% de certeza de que vamos pegar todo mundo", afirmou. "Mas posso garantir que, se você está tomando EPO e isso for encontrado em sua urina, então, sim, vamos detectar."
Médicos e laboratórios
Há também o temor de que os cientistas em alguns laboratórios da WADA possam estar colaborando com atletas ou com seus conselheiros médicos.

Acadêmicos estão investigando a possível colaboração entre médicos que estavam trabalhando com equipes de ciclismo e laboratórios credenciados pela WADA.

Eles temem que estes médicos estão obtendo informações exclusivas a respeito dos últimos procedimentos.

Outro problema crescente é o aumento do número de cópias de EPO.

Companhias na Índia, na China e em Cuba desenvolveram drogas que têm um efeito semelhante no corpo, mas têm uma estrutura molecular levemente diferente. Essas drogas são versões mais baratas de EPO e podem ser compradas na internet.

Em vista de todos estes fatores, cientistas afirmam que a WADA precisa ampliar seu critério para declarar um exame positivo para a droga.

Para os cientistas, os testes não devem examinar apenas a urina, mas também o perfil sangüíneo, para avaliar melhor a presença da droga.

Isso até pode ocorrer no futuro, mas não vai evitar o uso já nos Jogos Olímpicos de Pequim, segundo os especialistas.

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