Investigação britânica sobre guerra ao Iraque entra em fase decisiva

Londres, 17 jan (EFE).- Os trabalhos da comissão independente que investiga a guerra ao Iraque entram esta semana em sua fase decisiva, com os depoimentos dos ex-ministros da Defesa e de Assuntos Exteriores do Governo de Tony Blair, que também será interrogado até 5 de fevereiro.

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Geoff Hoon, que era o titular da pasta de Defesa durante o planejamento e a execução da invasão ao Iraque, vai testemunhar na terça-feira. Já Jack Straw, que era ministro de Assuntos Exteriores e hoje ocupa a pasta de Justiça, será interrogado na quinta.

Hoon foi o encarregado de montar a estratégia militar do Reino Unido na invasão ao país árabe. O objetivo principal dela era derrubar o presidente Saddam Hussein. Mas todo o plano acabou criticado devido às falhas no preparo e aos recursos insuficientes.

Straw, por sua vez, teve um papel diplomático chave na hora de convencer a opinião pública internacional de que o regime de Saddam possuía armas destruição em massa, as quais até hoje não foram encontradas.

Antes do depoimento dos dois ex-ministros, quem também falará à comissão independente nesta segunda-feira é o ex-chefe de gabinete de Blair, Jonathan Powell, que em 2003 era um dos principais assessores do ex-primeiro-ministro e soube em primeira mão das decisões políticas que levaram à guerra.

O testemunho de Straw é esperado com especial expectativa, sobretudo depois que o jornal "Sunday Times" publicou hoje uma carta "secreta e pessoal" na qual, um ano antes do conflito, o ex-ministro advertia Blair de que o fundamento legal para a guerra era duvidoso e que as dúvidas que ele gerava preocupavam boa parte do Governo.

A carta foi enviada dez dias antes de Blair se reunir, em abril de 2002, com o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush.

Implicitamente, a mensagem sugere que o então líder trabalhista já pensava na guerra nessa época, apesar de sempre ter dito publicamente que só tomou uma decisão a respeito no ano seguinte.

Na citada carta, Straw escreveu que o Iraque não representava uma grande ameaça ao Reino Unido e que não havia "provas confiáveis" de uma ligação entre o regime de Saddam e a Al Qaeda.

O então ministro destacou ainda que o desejo de uma "mudança no regime" não era "por si só uma justificativa para uma ação militar", em virtude do direito internacional. "Seguramente, isso requereria um novo mandato das Nações Unidas", acrescentou.

Hoon, por outro lado, terá que responder a perguntas sobre uma reportagem do jornal "The Observer", que disse que o então ministro da Defesa se recusou a distribuir um equipamento especial aos soldados que participariam da invasão para evitar que a opinião pública soubesse com antecedência dos preparativos para a guerra.

A mesma notícia destaca que Hoon limitou o número de coletes à prova de balas entregues aos soldados, equipamento que, se disponibilizado, "teria salvado várias vidas".

O depoimento de Hoon tem um atrativo a mais porque ele foi um dos trabalhistas de renome envolvidos em uma recente manobra para tirar do poder o atual primeiro-ministro, Gordon Brown. Por conta disso, a imprensa britânica acredita que o ex-ministro aproveitará seu testemunho para causar mais danos ao chefe do Executivo.

Brown, que era ministro da Economia quando o Reino Unido invadiu o Iraque, só deve depor à comissão após as eleições, previstas para maio. A decisão foi dos próprios investigadores, que concluíram que um depoimento do premiê poderia interferir no pleito.

Nas últimas semanas, diversos meios de comunicação publicaram documentos que mostram que Brown, que era quem autorizava os gastos da Administração de Blair com a guerra, bloqueou várias verbas para o envio helicópteros extras ao Iraque e ao Afeganistão, o que supostamente expôs as tropas britânicas a um risco maior.

Na semana passada, a comissão interrogou o ex-chefe de imprensa de Blair, Alastair Campbell, que insistiu que o Governo não manipulou o documento elaborado pelo serviço secreto a respeito dos armamentos do Iraque, uma das justificativas para a invasão.

O que mais chamou a atenção nesse testemunho foi o fato de Campbell ter confirmado que Blair enviou a Bush uma série de "notas" no ano anterior à invasão, Nelas, o então primeiro-ministro dava como certo o apoio do Reino Unido a uma invasão dos Estados Unidos ao país árabe.

Com certeza, este será um dos muitos assuntos a respeito dos quais Blair terá que falar quando for depor daqui a algumas semanas.

EFE fpb/sc

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