Investigação aponta que Blair prometeu apoio de Londres à invasão do Iraque

Londres, 12 jan (EFE).- O ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair enviou uma série de mensagens secretas ao ex-presidente dos Estados Unidos George W.

EFE |

Bush durante o ano anterior à invasão do Iraque, na qual prometeu o apoio militar de Londres no caso de guerra, segundo foi revelado hoje por uma comissão investigadora.

A informação veio à tona nesta terça-feira com o depoimento de Alastair Campbell, ex-chefe de imprensa de Blair, à comissão que investiga a preparação do conflito desde o desenvolvimento da guerra e os planos para a reconstrução do Iraque.

Na correspondência confidencial divulgada pela comissão, Blair dizia que o Reino Unido "estaria pronto" no caso de uma invasão do Iraque para derrubar Saddam Hussein.

Campbell reconheceu a existência das mensagens enviadas por Blair ao presidente americano em um momento no qual publicamente insistia em que a diplomacia era a principal opção para convencer Bagdá a renunciar às armas químicas e biológicas, um arsenal de destruição em massa jamais encontrado.

"O primeiro-ministro escreveu um montão de notas ao presidente, com o teor do tipo: compartilhamos a análise, compartilhamos a preocupação, vamos estar a seu lado para assegurar que Saddam Hussein cumpra com suas obrigações e que o Iraque seja desarmado", explicou o ex-chefe de imprensa.

Campbell lembrou que Blair acrescentava em suas mensagens a Bush que "se isso não fosse conquistado diplomaticamente a solução seria fazê-lo militarmente, e o Reino Unido estará pronto".

As mensagens foram consideradas altamente secretas e eram de conhecimento de um pequeno círculo de pessoas, como admitiu um dos colaboradores de Blair à época.

Conforme relatou Campbell, entre os "escolhidos" estava ele mesmo, o assessor de Blair em assuntos de política externa, David Manning, e muito possivelmente o então ministro de Assuntos Exteriores e atual ministro da Justiça, Jack Straw.

O atual primeiro-ministro, Gordon Brown, que então estava à frente do Ministério da Economia, não fazia parte do "círculo" que Blair consultava as decisões de maior importância com relação ao Iraque, como contou Campbell.

As mensagens permanecem em segredo e a comissão não fez referência sobre uma possível publicação.

Pelo fato de Campbell ser um dos melhores informados sobre as decisões secretas nos meses que antecederam à operação militar, o depoimento dele durou cinco horas.

De acordo com ele, sua declaração foi isenta de autocrítica e foi uma defesa da decisão política para acabar com Saddam Hussein da qual "deveria estar orgulhoso".

Campbell indicou que o primeiro impulso do ex-primeiro-ministro trabalhista quando anunciado o uso da força para acabar com o regime de Bagdá foi estar com Washington, mas acrescentou que Blair tentou encontrar uma solução diplomática até o final.

Só no dia 18 de março de 2003 - dois dias antes do início da operação militar -, Blair compareceu diante do Parlamento britânico para falar sobre o Iraque.

"Até esse momento, o primeiro-ministro tinha esperança que o impasse pudesse ser solucionado sem disparar um só tiro", manifestou.

Sobre o relatório que elaboraram os serviços britânicos de inteligência, no qual afirmava que Bagdá tinha armas químicas e biológicas e capacidade de lançar um ataque em 45 minutos, negou que o Governo tenha exagerado para persuadir à opinião pública de que a guerra seria a única opção.

Jornalista de profissão, Campbell admitiu que chegou a sugerir a elaboração de um texto, mas insistiu que não tentou impor seu critério acima do de John Scarlett, presidente do Comitê Comum de Inteligência (JIC) e o principal responsável pelo dossiê.

"Em nenhum momento pedi que aumentasse, que invalidasse nenhuma de suas opiniões", afirmou o ex-assessor de Blair.

Campbell disse que o documento não foi elaborado com a ideia preconcebida de justificar a invasão do Iraque, mas com a de demonstrar a preocupação de Blair sobre os programas de armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que nunca foram confirmados.

Sobre a afirmação que Saddam Hussein tinha condições de preparar um ataque com armas de destruição em massa em 45 minutos, Campbell assinalou que este foi um dado "ao qual não demos muita atenção", embora tenha sido um mais repetido pela imprensa britânica nos meses que conduziram à invasão de março de 2003.

Além disso, negou que Blair estivesse convencido da necessidade de expulsar Saddam Hussein do poder pela força, após uma reunião com o presidente americano George W. Bush em seu rancho de Crawford e que até o último momento confiou que pudesse solucionar o conflito por meio das Nações Unidas.

"Parece quererem que eu diga que Tony Blair uniu-se à ideia que, à margem dos fatos e das armas de destruição em massa, nós vamos eliminar este tipo, mas não foi assim", declarou. EFE fpb/dm

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