Intocáveis ganham voz na Índia com a proximidade das eleições

Diego A. Agúndez.

EFE |

Nova Délhi, 15 abr (EFE).- Vítimas de uma forte discriminação, os dalits, ou intocáveis indianos, começaram a usar a democracia como uma ferramenta para fazer suas vozes serem ouvidas na Índia, onde, na terça-feira, foi lembrado o nascimento do líder histórico dessa comunidade.

"Os dalits se ergueram com a democracia e votam mais que o resto, porque viram nela uma ocasião de participar das decisões políticas.

Em nível local, porém, são vistos com desprezo e até pressionados para não votar", disse à Agência Efe a professora Vidhu Verma, especialista em castas.

Mais de 160 milhões de dalits vivem na Índia, formando uma comunidade heterogênea excluída do sistema hindu de castas que se dedica às tarefas consideradas "impuras" - limpar latrinas, recolher lixo, por exemplo - e que é desprezada pelas demais.

Como cada ano, milhões de dalits comemoraram nesta terça-feira o nascimento do líder da comunidade, Bhimrao Ambedkar, mas, desta vez, de olho nas eleições que começam nesta quinta.

Como o voto dessa comunidade - 16% do censo - é determinante em muitas circunscrições, os diferentes partidos tentaram conquistar a simpatia dessa parcela da população para obter uma maioria sólida em um pleito indefinido.

Prova disso é que os principais dirigentes do governista Partido do Congresso e do hinduísta BJP participaram nesta terça de atos em homenagem a Ambedkar e tentaram atrair os eleitores dalits, apesar de, historicamente, nunca terem tido muito comprometimento com a causa da comunidade.

Os analistas afirmam que os dalits se inclinarão por partidos mais afins à casta, como o Bahujan Samaj Party (BSP), da intocável Mayawati, parte de uma inovadora "Terceira Frente" eleitoral que tem como meta colocar fim ao bipartidarismo na Índia.

Com ela como primeira-ministra regional, o BSP governa no estado mais povoado do país, o nortista Uttar, onde os intocáveis fazem uma grande festa de três dias na cidade de Agra para comemorar o aniversário de Ambedkar.

Mayawati, orgulho da comunidade, apesar de ser megalômana e exagerada - encheu a região de estátuas em homenagem a si mesma -, deseja ser a primeira dalit a liderar o Governo central se os dois principais partidos nacionais não conseguirem bons resultados.

Muitos na Índia a consideram, de fato, o azarão deste pleito e, apesar de realmente surpreender se conseguir alcançar uma maioria suficiente para governar, "terá um papel de primeira linha nas negociações pós-eleitorais", afirmou Verma.

"Esta festa nos pega trabalhando no terreno. Nossa luta durou três mil anos e hoje estamos em uma boa posição para conseguir 60 deputados (de 543). Há uma oportunidade de chegar ao poder", afirmou à Efe um porta-voz do BSP.

Em um comício de encerramento de campanha para a primeira fase das eleições, que, na quinta-feira, ocorrerão em Uttar e em outras 16 regiões, Mayawati qualificou as duas grandes legendas nacionais de "partidos dos capitalistas e milionários".

Os Governos dessas legendas, disse, tornaram os pobres da Índia ainda mais pobres, segundo a agência "PTI".

A candidata concluiu um trabalho de décadas para aproveitar a democracia e dar voz a esta comunidade tão grande como desprezada, que teve em Ambedkar, o pai da Constituição indiana, de 1950, o primeiro grande defensor dos dalits.

Apesar de ter nascido em uma família intocável, Ambedkar (1891-1956) se graduou em Direito e se tornou um ativista social e político que denunciou o sistema de castas e promoveu e alcançou a abolição do mesmo.

"Ambedkar é o artífice da libertação dalit. É um ator fundamental na História, um homem que deu a vida pela causa. Os dalits ainda o respeitam, apesar do tempo que se passou", disse Verma.

No entanto, a ilegalização das castas e a implantação de cotas na universidade e na Administração para os dalits não trouxe o fim ao sistema, que persiste no campo e serve como instrumento para a mobilização do voto.

Em áreas rurais, os intocáveis vivem em zonas afastadas e ainda são proibidos de entrar em templos ou de ter acesso a fontes de água comuns, um exemplo da discriminação contra a qual Ambedkar lutou com fervor, até o ponto de abandonar o hinduísmo e se converter ao budismo.

Nesta terça, a luta do ativista foi novamente lembrada.

"Nós nos reunimos para colocar guirlandas ou rezar diante das estátuas de Ambedkar. Em nosso ato, éramos 300 pessoas, mas saiu gente por toda a Índia", disse em Chennai, sul do país, um porta-voz do partido Panteras Dalits (VCK). EFE daa/db

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG