Internet desafia sobrevivência do bicentenário correio americano

Com 235 anos, serviço postal quer suspender entregas aos sábados para cortar gastos e compensar avanço de comunicação online

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Divulgação
Queda no volume de correspondência dificulta situação financeira do serviço postal americano
Ao completar 235 anos de existência nesta segunda-feira, o serviço postal americano aguarda a decisão das autoridades do país sobre uma polêmica proposta apresentada no início deste mês: deixar de fazer entregas aos sábados. A prática, obrigatória por lei desde 1983, é considerada inviável em um mundo onde a comunicação é cada vez mais online.

Em outubro, a Comissão Reguladora Postal deve entregar uma avaliação sobre a proposta ao Congresso, que precisa aprovar a mudança para que ela entre em vigor. Os chefes do serviço postal apostam nos números para provar que a situação financeira da empresa, financiada apenas pelo lucro de seus próprios serviços e produtos, é insustentável.

O balanço mais recente, referente ao período entre outubro de 2009 e março de 2010, mostra que o serviço postal registrou perda líquida de US$ 1,9 bilhão e queda de 6,3% no volume total de correspondências em relação ao mesmo período do ano anterior.

Em comunicado divulgado pelo serviço postal americano em março, o chefe do setor financeiro da empresa, Joseph Corbett, disse que os números são um reflexo da recessão americana, que forçou companhias a cortar gastos com propaganda (a chamada “first-class mail”, utilizada para o envio de mala direta, é o serviço mais lucrativo para o correio americano). Mas a principal vilã ainda é a internet: conforme as pessoas dão preferência à comunicação via email, e empresas passam a enviar contas e notificações online aos clientes, o volume de correspondência diminui cada vez mais.

Em 2007, o correio americano registrou 213 bilhões de correspondências, número que caiu para 177 bilhões em 2009 e deve chegar a 150 bilhões até o final desta década. No caso da “first-class mail”, a queda foi de 15% entre 2006 e 2009. E, embora a popularidade das compras online represente um aumento de cerca de 3% ao ano no envio de pacotes, a expectativa é de que o serviço postal perca US$ 7 bilhões em 2010.

Modelo ‘quebrado’

A queda no volume de correspondências não implica em custos menores, já que os carteiros ainda precisam ir aos mais distantes endereços, mesmo que cada domicílio receba menos cartas a cada entrega. “É muito simples: o modelo de negócios está quebrado”, afirmou Corbett no comunicado divulgado pelos correios em março. “Leis e contratos precisam mudar e proporcionar a flexibilidade operacional necessária para obtermos estabilidade financeira.”

Segundo a direção do serviço postal, o fim das entregas aos sábados representaria uma economia de US$ 3 bilhões ao ano. Uma segunda proposta discutida pela comissão reguladora, que propõe um reajuste nos preços de selos e serviços, traria um ganho extra de US$ 2,5 bilhões.

As empresas americanas se dividem quanto à ideia de depender de um correio que funciona apenas cinco dias por semana “Há o grupo que não aceita o fim das entregas aos sábados, e outro que não gosta da proposta, mas a considera um mal necessário, dadas as condições financeiras do serviço postal”, afirmou o diretor executivo do Conselho Nacional de Política Postal, Arthur B. Sackler, ao jornal “The New York Times”, no início deste mês.

Segundo ele, a eventual aprovação da mudança deve afetar principalmente empresas de cartão de crédito e seguro, que enviam notificações aos clientes com frequência. Para Sackler, o fim da entrega aos sábados pode acelerar um processo já em curso: a tentativa das companhias de substituir a correspondência tradicional por comunicação online.

A chefe da Comissão Reguladora Postal, Ruth Y. Goldway, afirmou no início deste mês ao “The New York Times” que sua tarefa é analisar a possibilidade de o fim das entregas aos sábados ajudar o serviço postal em curto prazo, mas prejudicá-lo no futuro.

“Redes de comunicação de verdade têm de funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana”, afirmou Goldway. “Para atender a essa necessidade, o serviço postal deveria expandir sua acessibilidade e capacidade de entrega.”

Histórico

O correio americano foi fundado em 26 de julho de 1775 e teve Benjamin Franklin, um dos líderes da Revolução Americana de 1776, como seu primeiro diretor. No cargo por um ano, Franklin foi responsável pela criação de novas rotas para a entrega de correspondências – que eram pouco utilizadas até então - e de serviços regulares entre a colônia e a Grã-Bretanha.

O primeiro chefe dos correios após a independência e a aprovação da Constituição americana foi Samuel Osgood, congressista de Massachussets indicado ao cargo em 1789 pelo presidente George Washington (1789-1797). Na época, havia 75 agências dos correios nos Estados Unidos. Hoje, elas são mais de 36 mil.

Todos os dias, 584 milhões de correspondências são processadas pelo serviço postal, que emprega diretamente 596 mil pessoas. As cartas são entregues em cerca de 150 milhões de residências por meio de aviões, helicópteros, trens, caminhões, carros, barcos, balsas, bicicletas e até mulas.

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