Infiltração nas Farc permitiu resgate, diz analista

A infiltração de agentes do Exército no grupo rebelde Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) teria sido o fator que permitiu o sucesso do resgate de 15 reféns nesta quarta-feira, disse à BBC Brasil o presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Paz (Indepaz), Camilo González. O resgate mostra que a operação de inteligência iniciada há anos atrás chegou a pontos delicados de infiltração, em diferentes níveis, e mostrou resultados como este, disse González, que é ex-integrante da extinta guerrilha M-19.

BBC Brasil |

O Exército da Colômbia afirma ter dado um "xeque-mate" nas Farc ao resgatar a política Ingrid Betancourt e outros 14 reféns em poder da guerrilha.

Segundo o Exército, o cativeiro onde Betancourt e os outros reféns eram mantidos foi localizado a partir da infiltração de agentes no Secretariado das Farc, máxima instância do grupo armado.

Formação militar
Para o presidente de Indepaz, esse processo de infiltração ocorre entre os guerrilheiros mais jovens, que foram incorporados às Farc no momento de crescimento de seu exército.

De acordo com González, a partir dos anos 80 o grupo rebelde passou a privilegiar a formação militar em detrimento da ideológica.

"Estar na guerra é um ato quase religioso, se não existe esse elemento ideológico, os guerrilheiros se tornam mais suscetíveis", disse.

O trabalho de inteligência do Exército colombiano teria contado com o apoio do serviço de inteligência do governo dos Estados Unidos, que desde 2002 financia e apóia militarmente o Plano Colômbia, principal programa de combate às guerrilhas e ao narcotráfico.

Operação
No dia 13 de junho, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, anunciou que um guerrilheiro havia oferecido libertar Ingrid Betancourt.

Semanas antes, o Exército colombiano havia afirmado ter visto os três soldados norte-americanos que estavam no mesmo cativeiro de Betancourt.

González, que é um crítico dos resgates militares forçados, disse que há semanas havia a informação de que as operações militares do Exército colombiano haviam sido reforçadas na região de Guaviare - onde foi realizado o resgate nesta quarta-feira.

"Era possível prever uma grande operação, mas de nenhuma maneira se poderia prognosticar que, de modo tão rápido e exitoso, se conseguisse libertar 15 pessoas", disse González.

Golpe
As últimas baixas sofridas pelas Farc, com a morte de Raúl Reyes, número dois da guerrilha, durante um bombardeio do Exército colombiano no Equador, e o assassinato de Ivan Ríos, membro do Secretariado, morto por seu guarda-costas, fortaleceram a tese de que o Exército mantinha um importante serviço de inteligência no interior do grupo rebelde.

A deserção de integrantes intermediários das Farc, que de acordo com o governo podem chegar a 5 mil guerrilheiros, era outro elemento que vinha mostrando debilidade no interior do grupo armado.

No entanto, de acordo com González, nenhum desses golpes foi tão duro para o grupo como o resgate militar de Betancourt, que ocorreu antes da negociação de um acordo humanitário que previa a libertação de reféns em troca de guerrilheiros presos.

"Durante os últimos oito anos as Farc converteram o acordo humanitário como sua política mais importante e isso se tornou o símbolo da sua existência e poderio", disse González.

"Agora Betancourt e os americanos (considerados os reféns de maior importância) se foram das mãos da guerrilha, e com eles a visão de invencibilidade militar (do grupo armado)", disse González.

Saída militar
O resgate de Betancourt representa uma vitória para a polêmica política de segurança democrática encabeçada por Uribe.

Essa política vinha sendo questionada por não promover um diálogo entre o governo e a guerrilha para a libertação dos reféns.

Agora, segundo González, o cenário tende a mudar. Para ele, a posição do governo, que defende a saída militar para a resolução do conflito armado colombiano, tende a se fortalecer.

"Com este resgate, que ganha forte apoio popular, o governo fortalece sua posição de que a solução para a Colômbia é a saída militar, sem diálogos e negociações", afirmou.

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