Índios na Bolívia retomarão protesto apesar de Evo suspender obra

Repressão contra indígenas contrários à estrada desatou ira de sindicatos, estudantes e organizações, estimulando manifestações no país

iG São Paulo |

AP
Morales anuncia suspensão de trabalhos em estrada durante coletiva de imprensa em La Paz (26/09)
Indígenas bolivianos contrários à construção de uma estrada se organizam para reiniciar sua marcha de protesto em direção a La Paz, apesar do anúncio do presidente Evo Morales da suspensão da obra . Centenas de nativos estão mobilizados em dois municípios, Rurrenabaque e San Borja, próximos a Yucyni, a 320 km de La Paz, onde a polícia reprimiu no domingo a marcha, provocando críticas contra o presidente e a renúncia de sua ministra da Defesa na segunda-feira .

A repressão desatou a ira de sindicatos urbanos, estudantes e organizações cívicas regionais, estimulando uma onda de protestos por todo o país, incluindo marchas, greves de fome e a convocação de uma greve geral.

Evo anunciou na noite de segunda sua decisão de suspender a construção da estrada de 300 km que cruzará o Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), na região central do país, até que seja realizada uma consulta popular, mas a decisão não convenceu os manifestantes. Os protestos se multiplicaram, e o que era um movimento contra a estrada tornou-se uma contestação ao próprio presidente socialista.

Na noite de terça, Sacha Llorenti renunciou ao cargo de ministro do Interior em coletiva de imprensa. Llorenti, que garantiu que Evo aceitou sua demissão, tomou a decisão para evitar instrumentalização política do incidente.

A construção da rodovia, que ocupará 12 mil km² da área indígena onde vivem 15 mil habitantes, ficou a cargo da empresa brasileira OAS e, segundo o governo boliviano, permitirá uma conexão entre o Pacífico e o Atlântico e beneficiará Brasil, Bolívia e Peru.

"O fato de o presidente solucionar o primeiro ponto não quer dizer que tenha saído do problema, vamos continuar", afirmou à AFP o deputado indígena Pedro Nuni, um dos líderes da marcha. Para Nuni, a decisão do governante "não é uma garantia", porque os indígenas não querem a suspensão da obra viária, mas seu cancelamento definitivo. "Dissemos e repetimos: não queremos que essa estrada exista", ressaltou.

O porta-voz do TIPNIS, Adolfo Moye, disse à EFE que o anúncio de Morales confirma a continuação da obra. "As comunidades indígenas não querem que essa estrada passe pelo TIPNIS. Então, para que ele fará a consulta? Não acreditamos nessa proposta do governo", ressaltou.

Os indígenas aproveitam sua nova posição para reforçar outros pontos que querem ver solucionados, relacionados a atividades petrolíferas em suas comunidades, titulação de territórios, compensações pela emissão de gases de efeito estufa e direito à consulta em todas as leis de seu interesse.

Nuni afirmou que ainda não há uma data para o reinício da caminhada porque primeiro é preciso encontrar os indígenas que estão desaparecidos, que, segundo sua colega Blanca Cartagena, "somam cerca de 20, entre adultos e crianças". "Primeiro de tudo: nos ajudem a encontrar nossos irmãos para depois ver que ação vamos tomar", afirmou.

Na operação policial para conter o protesto dos 1,5 mil indígenas, 500 agentes atacaram com gás lacrimogêneo e cassetetes o acampamento, amordaçaram os dirigentes e as mulheres, e levaram dezenas deles em ônibus e caminhonetes para cidades vizinhas.

A situação sobre os desaparecidos ainda é incerta em San Borja e Rurrenabaque, já que os nativos asseguram que há ao menos duas crianças e quatro adultos mortos, embora o governo tenha desmentido essa informação.

Em Rurrenabaque e San Borja os nativos estão em sedes abertas da Igreja Católica. Ali, dormem, descansam e comem com a assistência da prefeitura local e de grupos civis.

BNDES

Um empréstimo de US$ 332 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) previsto para ser feito à construção ainda não foi efetuado. De acordo com o BNDES, nenhum desembolso visando financiar importações de equipamentos e serviços brasileiros foi realizado até o momento.

O BNDES garantiu também que aguardará a decisão do governo da Bolívia sobre a continuidade ou não da construção da estrada. O financiamento foi aprovado no fim do ano passado e contratado no começo desse ano e a obra teve início em junho.

Segundo o jornal boliviano La Razón, a Administradora Boliviana de Rodovias (ABC, sigla em espanhol) ainda não informou à OAS sobre a paralisação, informou Pablo Siles, representante da empresa. Segundo Siles, os trabalhos nos dois trechos seguem enquanto não houver uma instrução que diga o contrário. "Estamos esperando um comunicado oficial da ABC para que também nos digam de forma direta e oficial" sobre o que fazer em relação a obra.

Crise

O presidente Evo recebeu fortes críticas pela ação policial, embora tenha afirmado que nunca instruiu os militares a recorrer à violência, e que inclusive a condenou.

Reuters
Protestos contra a repressão policial tomaram conta das ruas de La Paz (26/9)

Além da renúncia de sua ministra da Defesa, Cecilia Chacón, o vice-ministro do Interior, Marcos Farfán, também deixou seu cargo . De acordo com membros do governo, ele teria ordenado a ação policial contra os indígenas, mas, em sua carta de renúncia, Farfán desmente as acusações. Também renunciou em protesto nesta terça a diretora Nacional de Migração, María Renée Quiroga.

Morales, que chegou ao poder em 2005, uma greve de fome de cerca de 20 pessoas em Santa Cruz, marchas e vigílias em La Paz, Chuquisaca e Cochabamba.

A Central Operária Boliviana (COB), que reúne todos os sindicatos de operários, convocou uma greve geral de 24 horas para quarta-feira. O líder dos trabalhadores da Saúde, José Gonzales, afirmou: "Na COB estamos consternados com esse brutal ataque por parte da polícia contra os irmãos indígenas, que nos lembraram o estilo dos governos ditatoriais, o estilo dos governos neoliberais."

Já a Central Operária Departamental de Potosí anunciou que realizará um referendo para revogar o mandato do presidente Morales e de seu vice-presidente, Alvaro García.

A ministra do Desenvolvimento Produtivo Teresa Morales defendeu nesta terça-feira o presidente Morales, afirmando que ele não ordenou a repressão militar e reiterou a vontade de que uma comissão nacional e internacional de direitos humanos investigue o que ocorreu no país.

Analistas ressaltaram que em menos de um ano o presidente Morales precisou recuar duas vezes. Isso ocorreu em dezembro com uma alta de 83% do preço da gasolina e agora com o anúncio de suspender a construção da estrada, em ambos os casos pelas pressões de suas bases sociais de esquerda.

Com AFP, EFE e Reuters

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