Índios de Roraima vão à Europa para reivindicar direitos sobre suas terras

Madri, 18 jun (EFE).- Líderes indígenas da região de Raposa Serra do Sol, em Roraima, iniciaram hoje em Madri uma viagem européia para reivindicar a manutenção dos direitos adquiridos sobre suas terras.

EFE |

Jacir José de Souza, índio macuxi da aldeia Lilás, e a professora Pierlângela Nascimento da Cunha, da etnia wapixana da comunidade de Barata, falaram à imprensa na Casa da América, na capital espanhola, onde pediram o apoio dos Governos e sociedades européias para a decisão que a Justiça brasileira tomará em breve sobre seu território.

O Supremo Tribunal Federal (STF) deve se pronunciar nos próximos meses sobre o recurso apresentado por proprietários, parlamentares e o próprio Governo do estado de Roraima contra o decreto de homologação da Raposa Serra do Sol assinado em 2005 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Este decreto presidencial confirmava a propriedade dos indígenas sobre o território de 1,6 milhão de hectares (cerca de 7% da área do estado de Roraima), na fronteira com a Venezuela e a Guiana, e fixava o prazo de um ano para a saída dos "ocupantes não indígenas".

Além dos macuxi e wapixana, na Raposa Serra do Sol vivem os taurepang, patamona e ingarikó, divididos em 194 comunidades, com cerca de 19 mil habitantes.

"Viemos à Europa para mostrar a situação, para lembrar que a lei deve ser cumprida, que não se pode reduzir a área entregue a nossos povos e que o STF deve ter consciência de nosso sofrimento", disse Souza.

Segundo os índios, desde a década de 90 grandes empresários agrícolas do sul do país pressionam pela ocupação das terras da Raposa Serra do Sol para que sejam usadas para o plantio de arroz.

Seis famílias controlam o cultivo do arroz para a exportação, explorando a terra com graves danos ambientais, e ainda têm o apoio da classe política e econômica local e das forças de segurança, além de usarem os índios como mão-de-obra escrava, afirmaram.

Nas últimas três décadas, 21 índios foram assassinados, mas ninguém foi condenado, ao que se deve somar o atentado contra outros dez indígenas no mês passado, afirmou Souza.

"Não foi fácil chegar aqui vindo de tão longe, e se fizemos o esforço de viajar à Europa é para transmitir a mensagem de que estes invasores, os produtores de arroz, estão no coração de nossas terras e isto nos faz sofrer", declarou Cunha.

"Não nos tirem nossa terra. Há vários anos, todo o Brasil era dos índios. Que o pouco que nos restou não nos seja roubado, pois para nós ela é o mais importante", acrescentou Cunha, que pediu às sociedades que não se preocupem só com as florestas, mas também com seus habitantes.

Os índios contam com o apoio das ONGs Mãos Unidas, Cáritas, Survival e Entreculturas, que iniciaram a campanha "Anna Pata, Anna Yan" (Nossa Terra, Nossa Mãe) para divulgar a causa na Europa.

Souza e Cunha - juntamente com o antropólogo espanhol Luis Ventura, que viveu na Raposa Serra do Sol entre 2002 e 2006 - se encontraram após a entrevista coletiva com a vice-presidente de Governo espanhol, María Teresa Fernández de la Vega.

Amanhã, os índios e o antropólogo se reunirão com o ministro de Assuntos Exteriores e Cooperação da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, e também visitarão o Congresso dos Deputados, antes de seguirem sua viagem pela Europa, onde passarão por Reino Unido, Bélgica, França, Itália e Portugal. EFE fpb/ev/fal

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