Indignação na Itália pela decisão do Brasil de dar asilo a Battisti

A decisão da justiça brasileira de conceder ao ex-ativista italiano de extrema-esquerda Cesare Battisti asilo político gerou nesta quarta-feira enérgicas condenações por parte do governo italiano e dos familiares das vítimas, que recordaram os assassinatos pelos quais foi condenado na Itália em 1993.

AFP |

O ministério das Relações Exteriores italiano reagiu com uma nota incomum na qual não somente condena a decisão do ministro Tarso Genro como também solicita diretamente ao presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, reconsiderar a decisão.

"A Itália fez um apelo ao presidente Lula para que sejam tomadas todas as iniciativas possíveis, dentro da cooperação judicial internacional, na luta contra o terrorismo, para uma revisão da decisão judicial", afirmou o comunicado da chancelaria.

"Cesare Battisti é um terrorista responsável por crimes muito graves que não têm nada a ver com o estatuto de refugiado político", destacou a nota da chancelaria italiana.

O ministério italiano lembra na nota as relações de intensa colaboração estabelecidas recentemente entre os países mais industrializados do G8 com países como Brasil para derrotar o terrorismo internacional.

Lula foi recebido em novembro passado por Berlusconi em Roma com quem fechou acordo relativo à união de esforços para encarar a crise econômica mundial.

Além da chancelaria, vários representantes do governo conservador de Silvio Berlusconi manifestaram sua indignação contra a decisão da justiça brasileira.

O vice-ministro do Interior, Alfredo Mantovano, considerou "grave e ofensiva" a decisão: "um insulto a nosso sistema democrático", disse.

O senador Maurizio Gasparri, porta-voz do Partido Povo da Liberdade, no poder, expressou seu "desconcerto e dor", enquanto um dos líderes da oposição de esquerda Partido Democrático, Piero Fassino, disse que a decisão do Brasil "é equivocada".

"Foi protagonista da época do terrorismo e seria justo que os magistrados brasileiros tivessem maior consciência do que fazem", declarou.

Entre os mais indignados estão associações de familiares das vítimas de terrorismo.

"Mais uma vez houve total insensibilidade e falta de respeito à nossa democracia", declarou à AFP Sabina Rossa, deputada do Partido Democrático (centro esquerda), cujo pai foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas.

"É uma decisão absurda. Temos que mudar a tática, vamos fazer algo sério. Passar das belas palavras aos fatos, sérios e ponderados", advertiu por sua vez Alberto Torregiani, que ficou tetraplégico em um atentado atribuído a Battisti.

Além do Brasil, a França negou há quatro meses a extradição por "razões humanitárias" à ex-militante das Brigadas Vermelhas Marina Petrella.

Trata-se de dois casos que geraram fortes reações na Itália, país que enfrenta assim dois países que tradicionalmente defendem e concedem o estatuto de refugiado político.

Battisti, que sempre se declarou inocente, alega que foi condenado pelo testemunho de um ex-companheiro na organização esquerdista, Pietro Mutti, que foi premiado por sua delação, e sem nenhuma prova da perícia.

O ex-ativista se considera um perseguido político.

"Tenho certeza de que serei alvo de vingança se for para a Itália", afirmou em uma entrevista publicada esta semana na revista brasileira Época concedida na prisão de Brasília, onde espera solução para seu caso.

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