Indígenas na Bolívia retomam marcha até La Paz contra rodovia

Presidente Evo Morales acusa manifestantes de buscarem fracasso das eleições judiciais de 16 de outubro

iG São Paulo |

Reuters
Indígenas bolivianos que apoioam Evo Morales, em contrapartida, realizaram um protesto em La Paz contra a ação dos nativos que recusam a construção de uma rodovia (30/9)
Indígenas amazônicos bolivianos recomeçaram no sábado, após uma dura repressão , sua marcha de protesto contra a construção de uma rodovia financiada pelo Brasil, em meio a acusações e críticas do governo local.

O presidente Evo Morales acusou os manifestantes de buscarem o fracasso das inéditas eleições judiciais de 16 de outubro, já que a marcha está a mais de 250 km ao norte de La Paz e deve chegar à sede do governo quatro dias antes do processo eleitoral.

"Reiniciamos a marcha e nossa intenção não é a de enfrentarmos ninguém. O que o governo deve fazer em vez de acusar os indígenas é resolver de uma vez este problema da estrada", disse à mídia local Adolfo Chávez, presidente da Central Indígena do Oriente Boliviano e ex-aliado de Morales.

"A marcha partiu às seis da manhã", afirmou Rafael Quispe, líder dos indígenas, acrescentando que ela já está "no departamento de La Paz" e que o ritmo da caminhada será de cerca de 20 a 25 km por dia.

Embora ainda sejam poucos em número em comparação às etnias aymara e quéchua do ocidente andino, que apoiam maciçamente Morales, os indígenas amazônicos que iniciaram a marcha em 15 de agosto na cidade de Trinidad são apoiados por setores que questionam o discurso ecologista do governo.

O setor mobilizado rejeita a construção de uma estrada, que está a cargo da empresa brasileira OAS, que atravessaria o território indígena e o Parque Nacional Isidoro Sécure (TIPNIS) no centro da Bolívia.

Segundo o governo boliviano, a rodovia permitirá uma conexão entre o Pacífico e o Atlântico e beneficiará Brasil, Bolívia e Peru.

Morales tentou nove vezes dialogar com os manifestantes, enviando mais de uma dezena de ministros a diferentes regiões ao longo do trajeto, que percorre 602 quilômetros até chegar a La Paz. Mas não conseguiu frear a marcha.

A violenta intervenção policial ocorrida no domingo provocou uma das maiores crises no governo de Evo.  Os incidentes em Yucumo forçaram a renúncia da ministra da Defesa, Cecilia Chacón , indignada com a ação da polícia, e, posteriormente, do ministro do Interior, Sacha Llorenti , por suposta negligência. Pouco antes de entregar o cargo, Llorenti havia afirmado que as ordens para a intervenção policial tinham sido dadas pelo vice-ministro do Interior, Marcos Farfán, que também pediu demissão - porém, negando as acusações do governo.

Segundo o promotor-geral da Bolívia, Mario Uribe, Sacha Llorenti será investigado por suposto envolvimento na intervenção policial. Uribe ainda destacou que, caso haja necessidade, Evo também pode ser convocado a depor.

Essa semana, o país andino mostrou ser solidário à causa indígena, e realizou protestos em cidades dos nove departamentos bolivianos protestos, além de uma greve geral promovida pela Central Operária Boliviana (COB).

O presidente boliviano tentou amenizar a situação, suspendendo as obras na segunda-feira , mas não impediu uma reorganização da marcha .

Na terça-feira, ao empossar os novos ministros do Interior e da Defesa , Wilfredo Chávez e Rubén Saavedra, o presidente acusou os meios de comunicação de mentir e utilizar o incidente policial para minar o governo. "Já disse isso e não tenho medo de repetir: a maior oposição a Evo Morales são os meios de comunicação, mas vamos lutar esta batalha, da verdade contra a falsidade".

Morales enfrentava até agora uma dura oposição de setores conservadores, especialmente do leste do país. Essa é a primeira vez que a resistência ao seu governo parte de grupos indígenas.

Com Reuters e AFP

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