Indígenas e governo chegam a acordo sobre rodovia na Bolívia

Dezesseis pontos de plataforma indígena foram resolvidos, com prazos para serem cumpridos, afirmou líder dos manifestantes

iG São Paulo |

O governo da Bolívia e os amazônicos chegaram a um acordo sobre os 16 pontos da plataforma indígena que incluía, entre eles, a anulação de um projeto viário financiado pelo Brasil, após a suspensão da construção de um polêmico trecho que passaria pela reserva Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis).

EFE
Um dos indígenas que acampam em frente à sede do Palácio Presidencial de La Paz alimenta pombos (21/10)

O ministro da Comunicação boliviano, Iván Canelas, disse nesta segunda que as demandas dos indígenas foram atendidas depois de dois dias de diálogo em La Paz, iniciado assim que o presidente Evo Morales anunciou, na semana passada, que pararia a construção do trecho sobre a reserva. "Chegamos a um acordo e atendemos a cada um dos 16 pontos dos irmãos indígenas. O diálogo foi muito cordial, amplo, foi um debate enriquecedor", afirmou o ministro.

Após a aprovação parlamentar, Canelas prometeu um ato no Palácio de Governo para que o presidente possa promulgar a lei e colocar um ponto final no conflito.  O Parlamento vai declarar também o Tipnis área intangível que implica o "respeito a seu habitat, e a proteção ambiental e ecológica", explicou Sonia Guardia, senadora do Movimento Ao Socialismo (MAS), partido de Morales.

O caráter de intangibilidade preserva também o TIPNIS de eventuais plantações de coca, principal insumo para a produção da cocaína. "Acredito que o governo finalmente entendeu que não podia destruir um parque nacional. Não sei se foi porque entendeu ou se foi pela pressão da marcha que vinha e o povo boliviano se ergueu", declarou Fernando Vargas, líder dos indígenas, que caminharam 600 km durante 65 dias para conquistar seus objetivos .

As intensas negociações realizadas desde sábado permitiram que "todos os pontos fossem resolvidos, com prazos para que sejam cumpridos", indicou Vargas.

A marcha indígena, interrompida por forte intervenção policial em setembro, chamou a atenção da comunidade internacional e provocou uma das maiores crises no governo Evo, que se viu obrigado a ceder às demandas dos indígenas.

Após a operação dos agentes da segurança, os então ministra da Defesa e ministro do Interior renunciaram em protesto e por suposto envolvimento na ação, respectivamente. Diante desse cenário de crise, em setembro, Morales anunciou a suspensão temporária da obra rodoviária.

O conflito provocou questionamentos à gestão de Morales, primeiro indígena a governar o país, pela aparente contradição entre o projeto de infraestrutura e seu conhecido discurso ambientalista e de proteção aos direitos dos nativos.

Agora, os quase 2 mil indígenas que chegaram a La Paz na quarta-feira - cerca de 100 dos quais ainda realizam vigília em frente à casa do governo - esperam apenas que o Congresso aprove as emendas em uma lei que anula o projeto de construção de uma estrada por uma reserva natural.

A solução para o conflito foi alcançada na sexta-feira depois que o presidente Evo Morales anunciou que nenhuma estrada atravessará a reserva natural do Tipnis, no centro da Bolívia, para o qual enviou emendas a uma lei que irá para o Congresso, de maioria governista, nesta segunda-feira.

"Com a aprovação da lei e sua promulgação, podemos colocar um ponto final neste conflito que nos deixou muito preocupados durante os últimos dois meses", manifestou Canelas.

Essa é a segunda vez em menos de um ano que Morales recua diante do protesto de setores sociais. Antes, ele havia promulgado um impopular aumento do preço da gasolina - de mais de 70% - e teve que voltar atrás.

O presidente boliviano acaba de sofrer um revés nas recentes eleições para eleger magistrados , nas quais o voto nulo dominou.

O trecho viário agora proibido no Tipnis é parte de uma rodovia de 306 quilômetros entre as cidades de Villa Tunari e San Ignacio de Moxos, dos departamentos de Cochabamba e de Beni respectivamente, cuja construção está sob a responsabilidade da empresa brasileira OAS, por US$ 420 milhões.

Com AFP e Reuters

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