Indígenas chegam a La Paz para pressionar governo contra rodovia

Evo Morales propôs dialogar com manifestantes que exigem paralisação efetiva da construção de estrada que corta reserva indígena

iG São Paulo |

Um grande e festivo evento parou o centro de La Paz nesta quarta-feira para receber os indígenas que chegaram à cidade após 65 dias de passeata. A intenção dos manifestantes é permanecer na capital boliviana até que o presidente Evo Morales paralise efetivamente as obras de uma estrada que atravessará a reserva natural Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis).

AFP
Manifestantes indígenas chegam a La Paz

De acordo com o jornal local La Razón, os cerca de 2 mil indígenas chegaram esta tarde na cidade. Dezenas de milhares de bolivianos homenagearam os manifestantes nas calçadas, ou se somaram à marcha de forma espontânea, e lhes receberam com abraços, beijos, cantos, presentes, roupas e comida. Outros carregavam cartazes onde lia-se "Bem vindos a La Paz".

"Nunca pensamos nessa recepção que já faz parte da história dos bolivianos", afirmou o líder da Confederação de Povos Indígenas da Bolívia (CIDOB), Adolfo Chávez. Os manifestantes foram recebidos na praça Murillo, onde fica a sede do governo, e celebraram uma missa. De lá, parte deles partiu para a praça Mayor de San Francisco.

Durante sua permanência na capital boliviana, os manifestantes ficarão hospedados na Universidade Estatal San Andrés. A rádio boliviana Laser conversou com transeuntes que estavam com a voz embargada e destacaram a coragem dos indígenas. "São heróis, estão caminhando em defesa do meio ambiente", disse um deles.

Várias ambulâncias procederam a manifestação, transportando principalmente mulheres e crianças que sofriam do mal da altura e como medida preventiva, depois que uma gestante perdeu o filho devido ao esforço da caminhada, enquanto outra deu à luz em La Paz, segundo informe de um hospital local.

Os manifestantes caminharam cerca de 600 quilômetros para forçar Morales a se retratar da decisão de construir a rodovia que atravessará o Tipnis. Os indígenas defendem a reserva natural, de 1,2 milhão de hectares, porque acreditam que a construção da estrada Villa Tunari 2-San Ignacio de Moxos permitirá que suas terras sejam invadidas por madeireiros e produtores de coca. A construção da estrada está a cargo da empresa brasileira OAS.

O ministro da Comunicação da Bolívia, Ivan Canelas, disse em entrevista coletiva que a chegada da passeata à praça Murillo foi permitida, mas advertiu sobre a presença de ativistas políticos que possam provocar violência. Ele declarou que o governo está pronto "para iniciar o diálogo se quiserem de forma imediata, talvez amanhã (quinta-feira)". Em nome de Morales, o ministro da Presidência, Carlos Romero, enviou uma nota na noite de terça-feira aos indígenas para "convidá-los a dialogar diretamente" assim que chegarem a La Paz.

Após a longa caminhada, os indígenas têm a "esperança de manter diálogo com o presidente do Estado Plurinacional com sinceridade, transparência, como deve ser", afirmou Adolfo Chávez. Ele confirmou nesta quarta-feira ter recebido "um convite ao diálogo, ainda não analisado". "A análise será feita durante a tarde desta quarta-feira", completou.

Na praça Mayor de San Francisco, os indígenas anunciaram que permanecerão em La Paz por tempo indeterminado. "Não é possível que num governo indígena se violem direitos indígenas, seu territórios, a Mãe Terra", disse Fernando Vargas, um dos líderes dos protestos, num desafiador discurso ao final da marcha, que paralisou La Paz durante várias horas.

A passeata chega depois que Morales sofreu no domingo a primeira derrota eleitoral desde 2005 , em eleições judiciais nos quais a oposição estimulou os votos nulos ou em branco, que superaram com 60% os sufrágios válidos, que não chegaram a 40%.

Há cerca de 20 dias, a interrupção da marcha por uma violenta intervenção policial condenada pela ONU, representou uma das maiores crises ao governo Morales, primeiro indígena a governar o país andino. Após a operação dos agentes da segurança, os então ministra da Defesa e ministro do Interior renunciaram em protesto e por suposto envolvimento na ação, respectivamente.

Diante disso, Morales anunciou a suspensão temporária da obra rodoviária . Agora, a construção será submetida a referendo nas regiões de Beni e Cochabamba, por onde passaria a estrada, decisão essa também rejeitada pelos indígenas.

Os nativos têm uma plataforma de 16 pontos, à qual adicionaram mais um relativo à investigação da repressão policial. Além do cancelamento do projeto rodoviário, os nativos amazônicos pedem, entre outros pontos, "a paralisação de todas as atividades hidrocarboníferas no Parque Aguaragüe" - que gera cerca de 80% da produção de gás natural - e que foi rejeitada de pronto por Morales.

Um empréstimo de US$ 332 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) previsto para ser feito à construção ainda não foi efetuado. De acordo com o BNDES, nenhum desembolso visando a financiar importações de equipamentos e serviços brasileiros foi realizado até o momento.

O BNDES garantiu também que aguardará a decisão do governo da Bolívia sobre a continuidade ou não da construção da estrada. O financiamento foi aprovado no fim do ano passado e contratado no começo deste ano, e a obra teve início em junho.

Com AFP e EFE

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