Índia levanta voz contra radicais hindus após ataque a jovens

Shilpi Singh. Nova Délhi, 28 jan (EFE).- Cidadãos, ativistas e líderes políticos mostraram sua indignação com o recente ataque a jovens em um bar por parte de um pequeno grupo de extrema direita hindu, que as acusou de violar os valores tradicionais da Índia.

EFE |

"É totalmente inaceitável. Estamos em estado de choque", disse à Agência Efe por telefone a presidente da ONG de defesa dos direitos das mulheres Women Power Connect, Ranjana Kumari.

Um grupo de ativistas da organização fundamentalista hindu Sri Ram Sena (Exército de Ram) irrompeu, no sábado passado, em um bar da cidade de Mangalore, no sul do país, onde agrediram as jovens por estarem ali violando "as normas tradicionais indianas" em uma atitude "obscena".

"Isso é puro 'talibanismo'. Comportamentos do tipo não são próprios de nossa cultura", lamentou Kumari, que chamou os fundamentalistas de "gente intolerante com a nova mulher indiana, que se mostra segura e independente".

De forma parecida se expressou a ministra para a Mulher e o Desenvolvimento Infantil indiana, Renuka Chowdhury, que em declarações à rede de televisão local "NDTV" acusou os fundamentalistas de buscar a "talibanização" da Índia.

A imprensa local fez duros editoriais contra o ataque e os cidadãos levantaram a voz contra a "Polícia moral" hinduista, expressando temor de que esse tipo de cosia se repita.

"A geração de hoje gosta de sair e aproveitar com seus amigos em bares, discotecas e restaurantes. Mas depois desse ataque, me dá medo", disse à agência de notícias "Ians" Ranjana Goswami, uma mulher com dois filhos que vive em Bangalore, capital da região onde aconteceu o incidente, Karnataka.

Joshua Shetty, um técnico em informática de Bangalore, se mostrou mais duro e lembrou que "ir a um bar não é um delito e as pessoas que vão a bares não estão violando leis ou incomodando".

"Essas brigadas morais não têm direito de ensinar o correto e incorreto", afirmou.

A repercussão do ataque às jovens desencadeou a detenção de 26 ativistas do Shri Ram Sena, entre eles o líder do grupo.

"O chefe do grupo, Pramod Mutalik, foi detido hoje", confirmou à Efe uma fonte policial regional, embora porta-vozes oficiais tenha dito à imprensa local que a detenção responde à incitação à violência inter-religiosa e não ao ataque de sábado.

O incidente já derivou também em uma rixa política entre o Partido do Congresso, que lidera o Executivo indiano, e o conservador Partido do Povo Indiano (Bharatiya Janata, BJP), principal legenda de oposição e que governa em Karnataka.

O BJP tomou distância do ataque e assegurou que o Shri Ram Sena não faz parte da rede de grupos hinduístas que o apóia.

Segundo a agência de notícias "PTI", o porta-voz do BJP, Rajnath Singh, condenou de forma dura o atentado, embora tenha acusado os demais partidos, "supostamente laicos", de ter fobia a sua legenda, em alusão às críticas contra o BJP geradas após o ataque.

Centenas de organizações religiosas, sociais e políticas atuam como satélites direitistas do BJP, quase todas agrupadas no movimento Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), que propõe o conceito de "hindutva" ou "hinduidade", que tem suas raízes intelectuais no nacionalismo cultural hindu.

Na Índia, sobretudo nas zonas rurais, a mulher sofre ainda uma grande discriminação e é vítima de violência, muitas vezes no próprio lar.

Segundo os últimos dados divulgados pelo Escritório Nacional de Registro de Delitos (NCRB), no país asiático foram cometidos 185.312 delitos em 2007 contra as mulheres e 75.930 foram classificados como "atos de crueldade de maridos e parentes".

Quase 50 mil dos delitos registrados foram por assédio e agressão sexual. EFE ss/rr

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