Inderrai

Em inglês, In the Heights. Em inglês latino, Inderrai.

BBC Brasil |

Nossos irmãos hispânicos são letrófagos, devoram letras. Nós também, mas temos apetites diferentes.

Para eles, penthouse é penrrau. Club sandwich é clusanduih. E a melhor: Lower East Side, o bairro, é loisada.

In the Heigths este ano ganhou o prêmio Tony de melhor musical da Broadway e pouca gente nos Estados Unidos e até mesmo de Nova York sabe onde fica o bairro.

O mapa da cidade é preciso: começa na rua 155, em Manhattan, e vai até o Fort Tyron Park, o ponto mais ao norte da ilha, mas os turistas quando vão ao museu do Cloister's, de arte medieval, não sabem que estão no Inderrai.

O bairro é grande, longo, dividido pela avenida Broadway. O lado leste é latino de classe média baixa. Um apartamento de um quarto vale US$ 100 mil. O lado oeste é mais diversificado e mais afluente. O mesmo apartamento vale pelo menos US$ 250 mil.

Os dois lados estão quentes no mercado imobiliário, mas a peça fervendo na Broadway, premiada com Tony de melhor musical, foi inspirada no lado pobre. Lin Manuel Miranda tem 28 anos e escreveu a peça quando estava na faculdade.

Levou sete anos para juntar dinheiro e foi às alturas com o primeiro musical ou peça latina, da concepção ao elenco, na Broadway. Só o diretor, também muito jovem, é gringo.

In the Heights é uma mininovela com hip hop, salsa e jazz, uma típica salada de Nova York, e o criador recebeu o prêmio com um rap que, entre outras coisas, homenageava Stephen Sondheim: "Look mr. Sondheim, I made a hat where there was never a hat and it's a Latin hat at that". Sabe tudo de musical.

O sucesso da peça chamou atenção para o bairro, que não faz nenhuma questão de ser famoso. Pelo contrário. O anonimato, combinado com a proximidade do Harlem, mantém os preços baixos.

A história do bairro é rica. Foi palco da guerra pela independência no século 18. No começo do século 20 foi invadido pelos irlandeses, holandeses, italianos e alemães que moravam no sul de Manhattan e tinham suas guerras eles e com os negros do Harlem na fronteira sul do bairro.

No fim dos 30 e 40 foi ocupado por judeus alemães e austríacos, logo em seguida por negros do sul dos Estados Unidos, em seguida por porto-riquenhos, cubanos e dominicanos.

A maioria dos brancos caiu fora e os que tinham dinheiro ocuparam a parte mais cara, mais alta e mais afastada dos latinos e negros, Hudson Heights. No lingo local, Rassonrai.

Mais brutal do que todas etnias, na década de 80 veio a invasão a crack cocaína e de uma agulhada para outra o crime do bairro explodiu. Em 91, 119 homicídios, um dos recordistas da cidade.

Rudolph Giuliani ainda era promotor e Alphonse D'Amato ainda não era senador quando foram ao bairro provar a facilidade de comprar drogas. Câmeras de televisão escondidas documentaram a ação dos dois "repórteres".

Foi uma agulhada na opinião pública. A polícia criou um distrito policial no meio do bairro e despejou 200 policiais nas ruas. Havia uma prisão por drogas em cada hora e meia.

O bairro tem seis pontes e três auto-estradas que facilitam entradas e saídas rápidas de traficantes, mas os resultados apareceram em pouco tempo. O crime despencou.

Ano passado, Inderrais só teve cinco homicídios. O Upper East Side, um dos bairros com maior renda per capita do país, teve 10.

In the Heights está nas alturas.

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