Independência do Kosovo causou divisão na comunidade internacional

Jordi Kuhs. Viena, 20 dez (EFE).- A proclamação unilateral em fevereiro último da independência da ex-província sérvia do Kosovo causou uma ampla divisão na comunidade internacional, com conseqüências ainda difíceis de prever.

EFE |

Só 52 países, entre eles a maior parte dos Estados-membros da União Européia (UE) mais Estados Unidos e Japão, reconheceram até agora a soberania do território balcânico, habitado por dois milhões de albano-kosovares mas considerado pela Sérvia como o berço de sua identidade nacional.

Países que têm problemas com fortes identidades regionais e ideais de independência interna, como Rússia, China, Romênia e Espanha, não reconheceram a autoproclamação kosovar e asseguram que houve violação do Direito internacional.

A proclamação unilateral da soberania kosovar ocorreu depois do fracasso definitivo, em novembro de 2007, das negociações entre Belgrado e Pristina.

Por mais de um ano, as partes tinham tratado de superar posturas irreconciliáveis.

Enquanto autoridades do Kosovo estavam dispostos a aceitar o plano elaborado pelo mediador internacional Martti Ahtisaari - que previa uma independência tutelada -, a Sérvia insistiu até o final em sua oferta de uma ampla autonomia, embora excluindo a independência.

Diante do apoio aberto de Washington, Londres, Paris e Berlim, uma cúpula albano-kosovar, liderada pelo primeiro-ministro e ex-líder guerrilheiro Hashem Thaçi, deu em fevereiro os últimos passos rumo à independência, com a escolha de uma bandeira e de um escudo nacionais.

Em 17 de fevereiro, e em meio a uma enorme expectativa da imprensa e de algumas ameaças implícitas feitas pela Sérvia, Thaçi proclamou na sede do Parlamento em Pristina a independência de seu país.

O anúncio foi celebrado pelos albano-kosovares durante vários dias, apesar das temperaturas polares de até 15 graus negativos que assolaram a região no período.

A reação dos sérvios, tanto no Kosovo como na própria Sérvia, foi violenta, embora menos radical do que a prevista.

Os atos mais violentos ocorreram em Belgrado no dia 20, quando 300 mil pessoas se manifestaram contra a independência kosovar.

Um grupo radical promoveu ataques à Embaixada dos EUA na capital sérvia durante esse protesto, deixando um morto e quase 100 feridos, entre manifestantes e policiais.

No entanto, após a ira inicial os ânimos se tranqüilizaram.

Belgrado prosseguiu com sua campanha diplomática contra o reconhecimento da independência kosovar.

Em outubro último, a Assembléia Geral da ONU aprovou a proposta da Sérvia para que a Corte Internacional de Justiça (CIJ) de Haia se pronunciasse sobre a legalidade da independência do Kosovo.

A UE, por sua vez, acabou enfrentando problemas no desdobramento da missão civil do bloco (Eulex) no Kosovo, a maior de sua história, com cerca de dois mil analistas, que devem apoiar as autoridades kosovares na construção de um Estado de Direito.

Os sérvios se negam aceitar a autoridade da Eulex, que já devia ter substituído a Missão das Nações Unidas no Kosovo (Unmik, em inglês), que administra a ex-província sérvia desde o fim da guerra de 1999.

Diante da falta de cooperação sérvia, a ONU definiu negociações com Belgrado para determinar suas condições para aceitar a Eulex. As conversas, no entanto, foram encerradas em novembro, abrindo passagem a um novo plano, rejeitado por Pristina.

Em meio a esse complexo processo, a independência do Kosovo e o reconhecimento do território por parte das principais potências ocidentais serviram como pretexto à Rússia para que apoiasse militarmente duas regiões separatistas na Geórgia.

Dessa forma, a resistência kosovar em aceitar as novas condições da Eulex criou novas incertezas. Uma possível divisão étnica no Kosovo, que poderia tornar-se realidade com um novo acordo, poderia dar origem a novas tensões nos Bálcãs.

Solucionar novos conflitos na região será sem dúvida mais difícil com uma comunidade internacional dividida. EFE jk/fr/mh

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