Copenhague, 21 out (EFE).- A dinamarquesa TV-Glad produz e emite programas há uma década com o trabalho de câmeras, repórteres e apresentadores portadores de necessidades mentais especiais, o que a transformou em pioneira no mundo nesse tipo de projeto.

Com 130 trabalhadores em seis departamentos, sede em Copenhague e três canais em parceria em outras localidades, se transformou em símbolo da integração para portadores de deficiência mentais e ainda acolhe uma emissora de rádio, um grupo de teatro e cursos profissionalizantes.

A "TV-Glad" é projeto de Henrik Marentius e Mikkel Holmbäck, que no final da década de 90 trabalhavam em um canal de Copenhague com pessoas com difícil acesso aos meios de comunicação.

Em 1998, criaram a associação "TV-Glad", que meses depois recebeu permissão das autoridades e começou a transmitir em 1999 em condições precárias e com as pessoas trabalhando gratuitamente.

"Os portadores de necessidades mentais especiais não estão incluídos no conceito de liberdade de expressão. Queríamos garantir seu direito democrático. Foram feito programas sobre eles, mas não lhes perguntavam sua opinião. Depois das escola, só tinham oficinas de trabalhos manuais", explicaram à Agência Efe Marentius e Holmbäck.

No fim de 1999, passou a receber verba estatal, um apoio definitivo para se conseguir alguns estúdios e uma equipe própria e começar a transmitir pelo "Canal Copenhague", que oferece espaço a várias emissoras locais e chega a um terço da população do país.

A "TV-Glad" conta com redações de cultura, revista de atualidade, temas culinários e entrevistas com profissionais sobre seus ofícios, de carteiros a carpinteiros.

Há uma mesa de redação, dirigida por Mogens Svane, profissional com ampla experiência no canal público "DR", na qual são discutidos a cada semana os temas a serem tratados, propostos pelos redatores, como Daniel Henrikssen, um jovem portador de necessidades mentais especiais de 21 anos que começou como estagiário há quatro anos e acabou se incorporando à equipe.

"Estava em uma oficina municipal protegido, mas ali não tinha nenhum desafio. Tinha visto alguns programas da 'TV-Glad' pela televisão e me interessei pela idéia", explica Daniel, que como todos os empregados recebe um salário, à parte de sua pensão por invalidez.

Para ele, assim como para outros colegas dele, o sucesso do canal confirma a importância de dois fatores: camaradagem e respeito.

"Aqui todos somos colegas, em todos os sentidos", afirma Peter Petersen, pedagogo chefe e envolvido no projeto desde o início.

A "TV-Glad" criou em 2004 uma escola profissionalizante voltada para pessoas com este tipo de necessidade e que vão desde assistente de cozinha a garçom, ator de teatro e repórter.

Petersen relata que tão grande quanto o ensino é a formação como pessoa e trabalhador.

Glad Teater é um grupo de teatro que conta com 17 alunos com distintas capacidades físicas e mentais.

"Temos que reinventar as técnicas todo o tempo, pensar as coisas de outra forma", diz Jesper Michelsen, um dos diretores, se referindo ao desafio de se comunicar com portadores de diversas necessidades especiais, como, por exemplo, visuais e auditivas.

"Isso também significa que ocorrem outras coisas, há tantas formas de expressão", completa ele.

"Nossos atores não vão poder fazer de tudo, do que se trata é de descobrir seu talento pessoal e desenvolvê-lo", acrescenta.

Atores do Glad Teater fizeram pequenas representações e colaboraram, por exemplo, em um projeto idealizado pela artista espanhola Dora García para a quadrienal U-Turn de Copenhague, mas o grande teste chegará em dois anos, quando se formar a primeira promoção: a estréia de "A rainha das neves", de Hans Christian Andersen.

Na "TV-Glad" não é difícil que um aluno ou repórter sofra um ataque epilético ou que seja necessário chamar uma ambulância.

"Simplesmente é preciso saber o que é e reagir com normalidade", explica Marentius.

A "TV-Glad" ficou popular em todo o país, e seus repórteres cobriram várias eleições e entrevistaram os principais líderes políticos.

"Os dinamarqueses sabem agora que os portadores de necessidades especiais também podem trabalhar, que não se deve tratá-los como se não valessem nada, mas com respeito, mas exigindo-lhes",dizem seus fundadores.

A "TV-Glad" foi tema de reportagens em vários canais dinamarqueses, impulsionou projetos similares em Equador e Noruega, e recebeu chamadas de interesse da China e da Itália.

Apesar da fama, que a fez virar até tema de uma tese de doutorado, a TV atravessa problemas econômicos, que poderiam ser solucionados em 2009 caso o Estado lhe desse uma verba fixa. EFE alc/rb/rr

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