Inadimplência triplicou na Espanha em 2008

A crise está deixando os espanhóis sem emprego, sem dinheiro e sem opções para pagar as dívidas. O número de inadimplentes na Espanha triplicou nos primeiros nove meses de 2008 em relação ao ano passado e segue aumentando, especialmente entre os imigrantes.

BBC Brasil |

De acordo com a Associação Nacional de Estabelecimentos Financeiros de Crédito (ASNEF, na sigla em espanhol - equivalente ao SPC e ao Serasa), 4,7 milhões de dívidas estavam pendentes até o fim de setembro - um aumento de 38% neste ano e que deve chegar aos 70% em dezembro.

Com o impacto da crise financeira, os consumidores inadimplentes estrangeiros passaram a integrar a lista dos devedores pela primeira vez na história dos cadastros da ASNEF. No cadastro espanhol, dois em cada dez inadimplentes são estrangeiros.

De acordo com a ASNEF, que controla a informação sobre pagamentos atrasados por mais de 90 dias, a dívida média dos inadimplentes estrangeiros no último trimestre era de R$ 7 mil.

"É preocupante esse aumento das dívidas familiares de forma generalizada e especificamente no caso dos imigrantes", disse à BBC Brasil o diretor comercial da ASNEF, Luis Salvador.

"Infelizmente, tudo leva a crer que seguirá crescendo porque a população imigrante é um setor mais vulnerável em tempos de crise por falta de emprego e apoio familiar", acrescentou.

Europeus
Mesmo representando 20% dos consumidores com nome sujo na praça, os estrangeiros ainda devem, em média, menos do que os espanhóis.

Do total de inadimplentes cadastrados, 70% são europeus de classes B e C com dívidas que chegam a cerca de R$ 9 mil. Os 10% restantes são empresários cujas pendências financeiras superam os R$ 48 mil.

Os casos mais graves são as dívidas bancárias relativas à compra de imóveis. Dos 20,5 bilhões de euros que seguem sem ser pagos, 6 bilhões são de créditos imobiliários.

"Muitos imigrantes compraram casas há pouco tempo e a preços altos", diz Salvador. "De uma hora para outra, se viram sem emprego e o Euribor (índice europeu de juros para créditos de imóveis) continuou subindo."
"Antes, os bancos aceitavam pagamentos de clientes mesmo que não houvesse saldo na conta corrente", acrescenta o diretor da ASNEF. "Agora, devolvem na hora."
Brasileiros
Os goianienses Mônica Gastão de Souza, de 34 anos, e Luis Claudio Farias, de 37, são um exemplo da falta de opções diante da crise na Espanha. Eles compraram um apartamento na periferia de Madri em 2005 e pagavam R$ 2,7 mil por mês pela dívida de 25 anos.

No mês de julho, Luis Claudio perdeu o emprego em uma fábrica. Somados o salário de Mônica como faxineira no aeroporto de Madri e os "bicos" que ele tem encontrado, o montante não chega a R$ 4,2 mil no fim do mês. Já a dívida com o banco subiu para R$ 5,4 mil mensais.

"A gente está tentando vender o apartamento, mas agora estão taxando por baixo, muito menos do que pagamos por ele na compra. E já reformamos tudo", lamenta Mônica, que mora legalmente na Espanha há oito anos.

"Devolver (o imóvel) para o banco também não resolve porque, se eles taxam por menos, continuamos devendo. Perdemos a casa e continuamos com dívida. Realmente, não sei o que fazer", desabafa a brasileira.

Especulação
Para o vice-presidente da Associação de Usuários de Bancos, Caixas e Seguros (Adicae) da Espanha, Fernando Herrero, a culpa é da especulação das construtoras para vender imóveis "de maneira desmedida, oferecendo créditos de até 100% com atitudes abusivas com os imigrantes".

Segundo a Adicae, muitos dos contratos de compra de imóveis fechados entre 2001 e 2005 tinham juros baixos, embora condicionados às variações do Euribor.

"Os compradores foram levados a pagar nos limites de suas possibilidades e esses limites estão estourando", avalia Herrero. "Tem gente dando 100% dos salários para o banco."
Para os bancos espanhóis, no entanto, receber o imóvel dos devedores para saldar uma dívida nem sempre é solução.

"Para os bancos, os imóveis não são interessantes. Eles querem que os clientes paguem seus créditos, mas têm que entender que cada caso é diferente", disse o porta-voz da Associação de Usuários de Serviços Financeiros (Ausbanc), que defende os direitos de consumidores diante dos bancos.

"Temos exemplos de imigrantes que entregam as chaves de suas casas porque não têm outra saída", acrescenta o porta-voz. "Muitos se conformam em conseguir 70% do valor do imóvel porque não podem vendê-lo pelo preço que pagaram."

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