Inabilitações expõem vácuo de liderança na oposição na Venezuela

Na terça-feira, último dia para o registro de candidaturas às eleições regionais de novembro na Venezuela, a televisão venezuelana exibia o desfile de candidatos que se dirigiam ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Nenhum dos que se apresentavam para as cinco prefeituras da região metropolitana de Caracas cativou Raquel Contreras e Gina González, duas dirigentes comunitárias de zonas pobres do oeste da cidade.

BBC Brasil |

"A verdade é que ficamos sem candidato", disseram as duas mulheres à BBC.

Ambas queriam votar em novembro no opositor Leopoldo López, atual prefeito do município de Chacao, que se colocava como opção à prefeitura metropolitana de Caracas.

Mas López não pôde se candidatar depois que uma decisão do Tribunal Superior de Justiça (TSJ) acatou o pedido da Controladoria Geral da Venezuela de barrar candidatos acusados de corrupção no exercício de seus mandatos.

Até poucos anos atrás Contreras e López trabalharam por suas comunidades como parte do projeto político "chavista", mas se desiludiram e se distanciaram do presidente.

Apesar de confessar serem seguidoras de López, as dirigentes comunitárias garantem que não foram seduzidas pela liderança da oposição.

"Muitos deles já são cartuchos queimados (velhas caras)", disse Raquel Contreras, explicando por que não caiu nos braços dos que se opõem à Chávez.

"Também não preenchem minhas expectativas", opina Gina García, para quem a oposição "só está se enfocando em que Chávez saia".

"E os problemas das comunidades? Bem, obrigado, que os resolva o Criador".

Liderança

Ambas afirmam que viram em Leopoldo López um dirigente mais em sintonia com suas comunidades pelo trabalho que vem desenvolvendo em áreas pobres da cidade.

Segundo várias pesquisas, o político contava com mais chances de ganhar se tivesse se candidatado.

Sem ele na corrida, as possibilidades de que a prefeitura metropolitana caraquenha fique nas mãos da oposição parecem se diluir, porque não há um substituto à sua altura.

Aí radica um drama que há dez anos se materializa na oposição: a falta de líderes fortes de projeção nacional.

Na década da chamada Revolução Bolivariana, nenhum político opositor pôde fazer sombra ao presidente Chávez.

Os diferentes candidatos que lhe fizeram oposição nas eleições presidenciais acabaram se retirando da cena pública, dominada pela figura presidencial.

O último desses aspirantes presidenciais opositores, o atual governador do Estado de Zulia, Manuel Rosales, hoje deseja regressar à prefeitura da capital estadual, Maracaibo, o que pode comprometer sua projeção nacional.

O ativista comunitário Jesús Torrealba disse à BBC que há um vazio entre as comunidades e as lideranças políticas tanto do lado do governo quanto da oposição.

"Muitas das lideranças não transcendem o plano midiático. São impostos à comunidade a partir dos meios de comunicação em vez de se construírem a partir da comunidade", afirma Torrealba, que fazia parte da Coordenadora Democrática, desaparecida coalizão opositora que promoveu a campanha contra Chávez no referendo revogatório em agosto de 2002.

Líder alternativo

Já López parece ter estado construindo uma base política sólida, e aos 37 anos suas popularidade vem em constante crescimento.

Em uma recente pesquisa da consultoria Datanálisis, López tinha um grau de simpatia de 40,8%, contra 41,6% de Chávez, o que em estatística significa um empate técnico.

Por isso, alguns analistas consideram que López poderia se converter no líder representante da oposição, um setor que, segundo os resultados de diferentes eleições, abarca menos de 40% dos eleitores.

Para o cientista político John Magdaleno, que assessora López, o crescimento do prefeito de Chacao nas pesquisas permite dizer que "já existe (na oposição) um líder alternativo com o mesmo nível de simpatia em nível nacional que o presidente Chávez".

"Surpreende que um líder local que nunca participou de uma eleição nacional tenha esse nível de reconhecimento nacional", disse Magdaleno à BBC.

Chacao é o menor município da grande Caracas, mas o mais rico e organizado, e por isso Magdaleno serve de "vitrine" para o resto do país.

Entretanto, é possível que passem vários anos antes que López possa estar em capacidade de sair da vitrine, pois sua inabilitação estará vigente até 2014. Até lá, terão passado outra eleição regional, uma parlamentar e as presidenciais de 2013.

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