Enquanto a crise segue assolando os sistemas financeiros nos quatro cantos do mundo, um pequeno país marcado por conflitos e instabilidade política registra um formidável momento de bonança financeira: o Líbano. Em plena crise global, o Banco Central do Líbano anunciou que os bancos do país vivem uma boa fase de liquidez e aumento nos investimentos e depósitos bancários.

Dados divulgados pelo BC libanês mostram que desde setembro, com a quebra da gigante de investimentos americana Lehman Brothers, as instituições financeiras libanesas receberam uma média de US$ 500 milhões por semana.

O aumento nos depósitos em instituições do país se devem em grande parte aos libaneses e seus descendentes que moram no exterior.

Os dados também falam que o Líbano já acumulou depósitos de mais de US$ 7 bilhões desde o início de 2008.

"Os lucros devem crescer mais de 10% este ano em relação a 2007, enquanto os depósitos bancários aumentarão entre 10 e 12%, caso o cenário continue o mesmo", declarou o presidente do BC libanês, Riad Salameh.

"Isso mostra que os clientes têm colocado seu dinheiro no Líbano, confiantes que estará mais seguro no nosso país", completou. "Muitos libaneses, inclusive, estão trocando seus dólares por liras libanesas".

Patrimônio
O Líbano possui mais de 60 bancos, com um patrimônio de mais de US$ 100 bilhões, o triplo do PIB do país, de cerca de US$ 23 bilhões.

Salameh também disse que os bancos libaneses operam com um grande fluxo de dinheiro e com uma taxa de liquidez de 30%, enquanto outras instituições pelo mundo lutam para não entrar em recessão e evitar uma onda de desemprego.

Vários bancos têm capital para empréstimos ao próprio governo e grandes empresas que requerem grandes somas de dinheiro.

O próprio Banco Central divulgou uma nota, na quinta-feira, em que pede aos bancos que concedam mais empréstimos ao setor privado para 2009, mas com uma recomendação de que os riscos sejam cuidadosamente estudados.

Regras
O sucesso do sistema bancário libanês se deve à "mão de ferro" do Banco Central sobre o setor, desde o final da Guerra Civil (1975-1990).

"O Líbano instituiu regras bem rígidas ao setor, que voltou a ser competitivo com outros bancos do Oriente Médio, e mantendo nossos bancos imunes à crise mundial", explicou Salameh.

O Banco Central, por exemplo, proibiu os bancos locais de investirem em operações de alto risco nas bolsas, negócios que prejudicaram vários bancos internacionais e regionais.

O BC libanês também criou outra regra em que os bancos são obrigados a manter uma reserva de caixa de 15%, uma garantia de liquidez em tempos de crise, de acordo com Salameh.

O conservadorismo dos bancos libaneses nas suas políticas de empréstimos e nos seus cálculos em investimentos de alto risco também explica a atual situação, segundo Louis Hobeika, professor de Economia e Finanças da Universidade Notre Dame, em Beirute.

"Os bancos locais não entraram na aventura econômica que os grandes bancos internacionais se meteram. Felizmente, para a sorte do país, os bancos libaneses ainda são muito céticos em operações de risco".

Recessão
Salameh lembra que, dadas as dificuldades com que o país vinha passando, o cenário atual do setor bancário é um milagre.

O Líbano sobreviveu a inúmeras crises, como o turbilhão político dos últimos dois anos, que quase levou os libaneses a uma nova guerra civil, uma guerra entre o Hezbollah e Israel, em 2006, e vários assassinatos políticos desde 2005. O país também tem uma dívida pública de US$ 43 bilhões.

Vários analistas vêm alertando, entretanto, que o Líbano não está livre de ser afetado pela recessão mundial, uma vez que os sinais negativos em outros partes do mundo farão com que as comunidades libaneses que moram no exterior diminuirem as remessas de dinheiro para o Líbano.

Segundo estimativas do governo, descendentes de libaneses mandam entre US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões ao Líbano todo ano. Estes números ajudaram a estimular a economia, que cresceu 6% em 2008 - um aumento de 2% em relação a 2007.

"Mais cedo ou mais tarde o Líbano sentirá a recessão. O consumo e investimentos deverão cair no início de 2009", salientou Hobeika.

O professor também sugeriu que o governo comece a se preparar para um período ruim.

Salameh admite que haverá dificuldades mais à frente, com a recessão afetando as transferências de dinheiro para o país.

Mas ele destacou que os bancos locais continuarão seus esforços em atrair mais investimentos, especialmente pelo fato de que eles têm participação na dívida pública do país.

"Eu estou otimista para 2009, mas é claro que estamos com os olhos bem abertos, especialmente para o fluxo de dinheiro que vem do exterior".

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