Impressionismo na crise

Por Lucas Mendes, de Nova York para a BBC Brasil

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A revoada de brasileiros neste fim de ano em Nova York parece recordista, mas não tenho provas. São impressões colhidas nas ruas, telefonemas e entre amigos.

Para nossos turistas não existe crise. Os restaurantes estão cheios, Times Square é um atropelo. Museus, hotéis e teatros lotados. Me perguntam: Cadê a crise? Não vêem que muitos prédios comerciais estão vazios e não conseguem alugar nem pela metade do preço que alugavam antes de setembro, quando morreu o banco de investimento Lehman Brothers. Basta prestar um pouco de atenção para perceber quantas construções estão paradas.

A morte do Lehman, o colapso da Bear Sterns, Merryl Lynch, GM, Ford, Chrysler, Maddoff... nada disto está à vista. Os carros estão nas ruas. Nem as 13 produções que vão fechar na Broadway em janeiro. Em tempos normais, fecham cinco.

Quase seis mil lojas fecharam em 2008. Algumas franchises, como a Bombay, de mobília, pareciam milagrosas. Em pouco tempo, nos anos da prosperidade, chegou a ter 3.600 empregados. Hoje tem 20.

Shaper Image, Linen'n'Things, Ann Taylor (de roupas de mulheres), Foot Locker, Levitz, já fecharam centenas de lojas ou estão em concordata. Impossível achar uma vitrine sem um sinal de liquidação. Algumas oferecem 85% de desconto.

Chego a Paris e pergunto aos amigos, cadê a crise? Impossível encontrar uma loja com um sinal de liquidação na vitrine. Times Square parece um deserto perto de Champs-Elysées. As calçadas da Galeria Lafayette são piores que Times Square, e se você juntar todos os visitantes nos museus de Nova York, não dão um Louvre.

Um casal amigo queria ver a Mona Lisa. Que fria! A multidão avançava com câmeras. A massa era mais impressionante do que a maciça coleção de arte. Para quê tirar uma foto da Mona Lisa atrás da proteção à prova de bala? Como é impossível abrir espaço para tirar uma foto, as pessoas ficam de costas para o quadro e com a câmera na mão tiram a foto do rosto delas e a Mona no fundo. Olha eu e a Mona Lisa!

No Grand Palais há uma extraordinária exposição dos quadros de Picasso, seus mestres e inspiradores. Tão espetacular que fica aberta 24 horas por dia, se não me engano, a primeira vez na história. Os amantes das artes e da noite vão ver Picasso às 4 horas da manhã e dão de cara com uma fila maior que as filas de comida da Depressão em Nova York, na década dos 30.

Os turistas sufocam mas salvam Paris, pelo menos por enquanto. Como os brasileiros que não vêem sinais da crise em Nova York não vi a fera em Paris nem na versão dos amigos, mas um motorista de táxi, no caminho de ida para o aeroporto, me garatiu que ela existe. Tinha começado a trabalhar às 5h, eram 8 e éramos a primeira corrida do dia. São turistas de ônibus e metrô. Os ricos que pagam 60 euros de táxi secaram. Os franceses vão levar o choque em 2009...

Meus colegas no programa Manhattan Connection me mandaram suas contribuições impressionistas. Caio Blinder passou o Natal em Israel e escreveu: "não fiz turismo consumista, mas o custo de vida é alto em Israel. Sou consumidor de água em grande escala e fiquei chocado com os preços para os turistas. De US$ 2 a US$ 4 por uma garrafa de litro e meio. Nos hotéis, a conversa nas recepções era sobre a crise econômica global. Significa menos estrangeiros. O turismo desabou com os atentados suicidas no começo da década e já existe ansiedade que a guerra de Gaza traga nova espiral de violência e provoque outra queda no turismo, atividade vital para a economia de Israel."

O economista Ricardo Amorim está na riviera de São Lourenço, litoral norte de São Paulo. Escreve que "os caixas eletrônicos estão vazios. Não sei se é um sinal de que a crise está tão brava, que o povo está gastando até o último centavo ou, muito pelo contrário, não há crise nenhuma e nunca gastaremos tanto. 2009 será o ano de enterro de velhos mitos".

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