Impacto da crise global no Brasil já preocupa Argentina

O impacto da crise econômica global sobre o Brasil já causa preocupações na Argentina. O governo e empresários temem especialmente o efeito que a desvalorização do real e um possível desaquecimento econômico poderão ter sobre as importações brasileiras de produtos feitos no país vizinho.

BBC Brasil |

Na noite da quinta-feira, a presidente argentina, Cristina Kirchner, se reuniu com membros de seu gabinete para analisar o impacto da crise.

A orientação de Cristina para sua equipe, segundo a imprensa local, é que acompanhe atentamente o que ocorre no Brasil, principal sócio comercial da Argentina.

Essa preocupação, compartilhada por diferentes setores da economia argentina, já ganha inclusive destaque na imprensa do país.

O principal canal de TV da Argentina inclusive se referiu como "O fantasma do Brasil" ao temor de que a crise afete o país vizinho e então se faça sentir na economia argentina.

Indústria
O presidente da União Industrial Argentina (UIA), Juan Lascurrain, disse que o setor teme que uma possível desvalorização do real torne os produtos brasileiros ainda mais competitivos que argentinos, ocorrendo uma "invasão" de mercadorias do Brasil no país.

Outra preocupação do setor industrial argentino é que, devido ao desaquecimento econômico provocado pela crise, o Brasil e outros mercados, como o americano, comprem menos produtos argentinos.

Hoje, 20% das exportações argentinas, incluindo as do setor automotivo, seguem para o Brasil - de onde vem 33% das importações argentinas.

Para analisar os efeitos da crise internacional, ministros da área econômica e de Relações Exteriores do Mercosul devem ter uma reunião no próximo dia 27, em local ainda não definido.

Nesta semana, uma comitiva argentina, que incluiu o embaixador Alfredo Chiaradia, secretário de Relações Econômicas Internacionais, esteve no Brasil, para medir de perto a temperatura da crise no país.

Chiaradia disse que a Argentina estuda adotar medidas na área comercial por causa da crise.

"Serão medidas preventivas", disse o embaixador, explicando que elas não devem ser afetar especificamente o comércio com o Brasil.

"Exagero"
Alguns economistas argentinos, porém, acreditam que há no país uma preocupação exagerada sobre o que poderia acontecer no Brasil.

"Há um certo exagero que nasce do pânico", disse à BBC Brasil Mauricio Claveri, economista da consultoria Abeceb.com.

"Essa reação ocorre porque a Argentina resolveu dar atenção somente agora à crise, a partir dos efeitos colaterais que pode sofrer por meio do Brasil. Até então se acreditava que a Argentina estava isolada desta crise por estar fora do mercado de capitais", afirmou Claveri.

Para Aldo Abraham, economista da Exante Consultores, "o impacto ocorrerá se a economia brasileira se desacelerar e não devido ao tipo de câmbio".

"Apesar da diferença cambial atual, não tivemos benefícios (na balança comercial com Brasil)", disse Abraham.

Atualmente, segundo dados da Abeceb.com., a Argentina acumula 64 meses ininterruptos de déficit comercial com o Brasil, mesmo com a desvalorização do peso frente ao real (em torno de 30%).

"Os setores industriais argentinos, como o automotivo, seriam os mais afetados se houver uma queda na atividade econômica brasileira", completou o economista.

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