Igreja convoca megaprotesto contra lei de aborto na Espanha

A Igreja Católica espanhola convocou os fiéis para mais uma manifestação nas ruas de Madri. Depois de se rebelar contra o casamento entre homossexuais, os bispos esperam liderar uma passeata de 1,5 milhão de pessoas neste sábado contra a lei do aborto.

BBC Brasil |

Para o presidente da Conferência Episcopal, cardeal Antonio Maria Rouco Varela, "a Igreja fará uso do seu direito de se manifestar publicamente para expressar o desacordo com a lei".

Na apresentação do protesto à imprensa, o cardeal negou que a hierarquia eclesiástica esteja fazendo política.

Segundo ele, o ato apenas reivindica o direito civil de livre expressão "porque em determinados momentos da história a Igreja é defensora da razão e de coisas que deveriam ser evidentes".

Igreja x governo
A polêmica com o governo do primeiro-ministro socialista José Luis Rodriguez Zapatero não é nova.

A Igreja Católica saiu em passeata pela primeira vez em 2005 para reclamar da lei que permite o casamento entre homossexuais e adoção de menores por estes casais.

Na última Semana Santa, começou a incitar os fiéis contra a lei do aborto.

Atendendo ao pedido da Conferência Episcopal, muitas confrarias exibiram laços brancos nas procissões de Semana Santa como prova de protesto contra o então projeto de lei de interrupção da gravidez.

Para a passeata deste sábado os bispos têm o apoio de 44 organizações espanholas reunidas num grupo chamado Fórum da Família e 300 estrangeiras (que ofereceram respaldo por escrito) e alugaram 600 ônibus para o transporte de participantes.

"Vamos às ruas para mostrar a este governo que somos muitos e não estamos dispostos a aceitar esta lei que despreza o drama de muitas mulheres que abortam por falta de apoio", disse à BBC Brasil Benigno Blanco, presidente do Fórum da Família.

O grupo antiaborto também lidera ao lado da cúpula eclesiástica um boicote civil à lei. Espera que médicos, enfermeiros e assistentes sociais aleguem objeção de consciência para não atuar em hospitais públicos em operações de aborto.

"O governo pretende impor com caráter obrigatório e sob coação sua ideologia de gênero e visão sobre a sexualidade. É inaceitável", completou Blanco, que já ganhou a primeira batalha contra Zapatero por meio de uma campanha com os farmacêuticos.

Pela nova lei do aborto as farmácias começaram a vender sem receita a pílula do dia seguinte, que pode ser tomada até 72h depois da relação sexual e serve para impedir gestações indesejadas.

Em resposta à lei, a Rede Espanhola de Farmacêuticos Responsáveis que já avisou que não venderá o remédio por questões ideológicas.

Feministas
Quem também ameaça com protestar desta vez contra a Igreja Católica são as mais de 200 instituições pró-aborto que se uniram no grupo chamado Rede Estatal de Organizações Feministas.

Segundo a porta-voz do grupo, Ángeles Álvarez "se for preciso uma manifestação, também nos manifestaremos porque defendemos uma causa sensata e estamos fartas deste ativismo político indevido e fundamentalista da Igreja Católica", disse à BBC Brasil.

A ONG espanhola Católicas com Direito a Decidir, que também participa da rede feminista, definiu como "vergonhosa" a atuação dos bispos que lideram passeatas.

"A Igreja está fazendo um papel político e não religioso. O que vemos aqui é uma cúpula eclesiástica que quer manter um poder que não lhe corresponde em uma sociedade laica. Quem decide sobre nossos corpos e nossa saúde somos nós", disse à BBC Brasil a presidenta da ONG, Maria del Mar Grande.

Segundo a lei, o governo oferece aborto grátis nos hospitais públicos até a 14ª semana de gestação ou até a 22ª em caso de perigo de vida para o feto e/ou para a gestante e se há má formação.

Também acaba com a penalização criminal para as mulheres que abortem fora dos prazos permitidos. A lei anterior previa multa e pena de seis meses a um ano de prisão.

A lei, aprovada no final do passado mês de setembro, também inclui um polêmico artigo que autoriza as jovens de 16 anos a abortar sem o consentimento por escrito dos pais.

Bonecos
A manifestação deste sábado contará com a distribuição de 200 mil bonecos de cinco centímetros representando a um feto de 12 semanas.

O objeto chamado de "bebê Aído", em alusão ao nome da ministra da Igualdade Bibiana Aído, defensora da lei do aborto, foi criado por um grupo de manifestantes "para comprovar que um bebê de 12 semanas é um ser humano que já tem cabeça, olhos, braços, pernas, mãos, pés e coração", disse à BBC Brasil uma das criadoras do boneco, Fátima Navarro.

O grupo também levará camisas com a estampa do bebê para a passeata "numa campanha altruísta cujo objetivo é arrecadar ajuda para instituições assistenciais de apoio a mulheres que sofrem gestações em dificuldade", afirmou.

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