Igreja chilena propõe indulto a violações de direitos humanos

No regime de Pinochet, 3 mil morreram e 28 mil foram torturados, incluindo ex-presidente Bachelet; proposta atrai protestos

iG São Paulo |

A Igreja Católica chilena apresentou nesta quarta-feira ao presidente Sebastián Piñera uma polêmica proposta de indulto, por motivos humanitários, que inclui condenados por violações aos direitos humanos durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). A proposta inclui militares que tiveram um grau de responsabilidade menor nas violações e que tenham mostrado gestos de arrependimento.

AP
Policial observa pessoas em Santiago do Chile segurando retratos de parentes que foram mortos durante a ditadura de Augusto Pinochet
O presidente da Conferência Episcopal do Chile, Alejandro Goic, e outras autoridades eclesiais se reuniram com Piñera para pedir clemência aos réus, o que atraiu críticas de vários setores. "Achamos que podem ser dados passos de clemência atuando no marco do estado de direito, do ordenamento constitucional e dos tratados internacionais vigentes", disse Goic ao apresentar o documento.

A maior parte dos condenados por delitos contra os direitos humanos era integrante das Forças Armadas. Durante a ditadura, cerca de 3 mil pessoas morreram por razões políticas e 28 mil sofreram tortura, incluindo a ex-presidente Michelle Bachelet.

Organizações de direitos humanos e outros grupos sociais e políticos iniciaram uma campanha nos meios de comunicação contra o eventual indulto, a ser decidido por Piñera ou pelo Congresso. Piñera, que tomou posse no começo do ano, é o primeiro presidente conservador a governar o Chile desde o fim do regime de Pinochet.

Nesta quarta-feira, várias entidades e dezenas de parentes das vítimas da ditadura com cartazes ou fotos de seus entes queridos se reuniram perante o Palácio Presidencial de La Moneda, sede do governo, para mostrar seu rechaço ao que qualificaram de proposta "contraditória" da Igreja.

"Por um lado reconhece que foram cometidos crimes contra a humanidade, e por outro lado insiste em fazer uma proposta de 'clemência' para os violadores de direitos humanos, o que definitivamente significa lhes outorgar mais impunidade do que tiveram em todos esses anos", disse Mireya García, vice-presidente da Agrupação de Familiares de Detidos Desaparecidos. Ela disse que os ativistas podem recorrer ao Tribunal Constitucional ou aos órgãos internacionais contra o eventual indulto.

"Ouvimos monsenhor Goic e tememos que incluam carrascos na decisão, e isso é inaceitável", disse à imprensa Lorena Pizarro, presidente da Associação de Familiares de Detidos Desaparecidos.

Goic disse que a proposta "não busca reabrir as graves feridas de ontem nem tampouco pretende que elas se fechem por decreto, simplesmente apresentamos às autoridades da nação a realidade da dor das pessoas que vivem privadas de liberdade, que foram julgadas".

*Com Reuters e AFP

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