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Igreja católica denuncia destruição da identidade africana

A Igreja católica pede aos africanos que reajam à destruição da identidade do continente causada pela globalização, que provoca saques, corrupção e relaxamento dos hábitos, em um documento publicado em Iaundê e que servirá de base para o próximo sínodo sobre a África.

AFP |

"Parece que um processo organizado de destruição da identidade africana está em curso sob o pretexto de modernidade", diz esse texto publicado hoje por ocasião da visita do Papa Bento XVI à República dos Camarões e que servirá de guia para o sínodo (assembléia consultiva de bispos) convocado para outubro, no Vaticano.

Bento XVI, que entregou solenemente um exemplar a cada um dos representantes dos episcopados nacionais do continente, destacou que o documento reflete "o grande dinamismo da Igreja na África, mas também os desafios com os quais ela se confronta".

O tom do documento ("instrumentum laboris") é, principalmente, sombrio: denuncia as guerras, a corrupção na política e na economia, a violação dos direitos do Homem, a situação das mulheres e a exploração infantil.

De acordo com o Sumo Pontífice, a Igreja católica não está livre desses males, apesar de seu reconhecido papel na resolução de alguns conflitos e de sua ação nas áreas de saúde e social.

Em "alguns países", que não aparecem citados no texto, os bispos não podem "mais falar como uma única voz", porque uma parte deles se posicionou "a favor de um partido político determinado", ressaltou.

O primeiro sínodo africano aconteceu em 1994, ano do genocídio em Ruanda, o país mais católico da África, onde o papel desempenhado pelos representantes da Igreja antes e durante o massacre ainda gera polêmica.

O documento preparatório para o segundo sínodo, intitulado "A Igreja na África a serviço da reconciliação, da justiça e da paz", acusa as "potências militares e econômicas" de impor sua lei, fomentando o tráfico de armas que causa guerras e explorando as riquezas minerais do continente.

As instituições financeiras internacionais também são postas em xeque, em função dos efeitos "funestos" dos programas de reestruturação impostos a sociedades já fragilizadas.

Além disso, a "globalização" ameaça, ou perverte, "os valores africanos autênticos", como o "respeito aos mais velhos", "o respeito pela vida", ou a cultura de ajuda mútua, acusa o texto.

A Igreja destaca, porém, positivas evoluções recentes, como o surgimento de "uma sociedade civil ativa", ou a preocupação de alguns líderes "com uma resolução interafricana dos conflitos".

O documento propõe aos católicos africanos pistas de ação para trabalhar pela reconciliação e pela justiça. Dedica ainda um amplo espaço para o "discernimento" ao recrutar futuros padres, religiosas e religiosos, assim como em sua formação.

Além disso, reafirma que "a opção preferencial para os pobres" está no cerne da atividade da Igreja, incluindo nas "organizações internacionais", para obter "a redução da dívida dos países pobres e transcender as barreiras de todo tipo (raça, tribo, região, nação, ideologia)".

Em sua homilia, hoje, por ocasião da primeira missa em terra africana, o Papa retomou os principais temas do documento, condenando "a desordem da vida tradicional" africana e "a tirania do materialismo", sob o efeito da globalização.

A África é, atrás da Oceania, o continente onde o número de católico avança mais rapidamente, passando de 12% da população, em 1978, para 17%, em 2006.

Nesse continente, no qual coabitam o Cristianismo, o Islã e as religiões tradicionais, a concorrência não vem do "ateísmo", como na Europa, mas da expansão das seitas pentecostais, disse Bento XVI, em sua viagem à África, na terça-feira.

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