Idosos do sul da Albânia acabam presos para inocentar filhos traficantes

Mimoza Dhima. Gjorm (Albânia), 29 out (EFE).- Jamais passou pela cabeça de alguns albaneses pobres do sul do país que eles viveriam sua velhice presos, envergonhados, como traficantes de drogas.

EFE |

No entanto, para salvar seus filhos e netos, aproximadamente 50 mulheres e outros vários homens com idades entre 48 e 90 anos que vivem em torno do Rio Vlora assumiram toda a responsabilidade e se declararam responsáveis pelo cultivo de cannabis em suas hortas.

Cerca de 20 deles são oriundos de Gjorm, um lugar distante e montanhoso ligado a cidade de Vlora por uma péssima estrada de 30 quilômetros construída há 70 anos por italianos.

Os 10 homens mais velhos já cumprem penas de entre dois e três anos nas prisões de alta segurança do país, enquanto uma dezena de anciãs com aproximadamente 90 anos vivem reclusas em suas casas ou fugiram para não cair nas mãos da Polícia.

Veziko Memushaj, de 86 anos, é incapaz de ultrapassar os limites de sua casa não porque esteja paralisada, mas por cumprir condenação de três anos de prisão domiciliar como plantadora de drogas.

Há três anos, a Polícia encontrou no jardim de sua casa 15 plantas de cannabis e a idosa, para proteger seus três filhos, aceitou se declarar autora do delito.

"Colocar na prisão uma velha é uma vergonha para o Estado, mas também um alívio para minhas noras que querem se desfazer de mim", confessou Veziko à Agência Efe em sua pobre casa, onde se casou há 70 anos.

Ela diz que nenhum regime de que se lembra, nem o do rei Zogu nem o do comunista Enver Hoxha, tinha perseguido de tal forma os idosos.

"São todas sentenças dos tribunais atrasadas do ano de 2005 que temos que executar agora", explicou à Efe Florian Mustafa, chefe do setor antidrogas da delegacia de Vlora.

Os filhos de outra condenada de 88 anos, Zybejde Aliaj, que padece em sua cama quase cega, afirmam que jogaram a culpa em sua inocente mãe para evitar sua própria detenção.

"Vimos os demais e semeamos 20 plantas no jardim para que ninguém no povo nos acusasse de espiões da Polícia", explicou Fejzi, um de seus filhos.

Ele nunca esquecerá o dia em que 20 policiais vieram em quatro carros para prender a sua mãe doente, que, pode-se dizer, é uma das delinqüentes mais perigosas da Albânia.

A mais procurada é Lala Ajazi, de 48 anos, que admitiu a culpa para salvar seu marido de uma segunda prisão.

Condenada a três anos de prisão, conseguiu se esconder dos policiais que vieram prendê-la no mesmo dia do casamento de sua filha, em agosto.

Os camponeses afirmam que estes vai-e-vens e fugas da Polícia custaram a vida de Temo Danaj, de uma localidade vizinha, que morreu de infarto no início de outubro, aos 78 anos.

Todos no povo, novos ou idosos, lembram os felizes anos, entre 1993 e 2005, quando o único cultivo nos campos era o de cannabis.

"Há três anos ganhei 4 mil euros pela venda de cannabis e comprei um carro", disse um garoto de 15 anos que tentou explicar a forma da folha da planta prodigiosa e o seu forte cheiro, que o fazia dormir.

Ele conta que as coisas mudaram desde que a Polícia reforçou as medidas antidrogas e agora é preciso suar mais para realizar o cultivo ilícito escondido nas florestas dos montes ao redor.

Segundo Florian Mustafa, o preço do haxixe subiu muito e só com a venda de uma planta de cannabis de dois metros de altura os camponeses ganham entre 300 e 350 euros, em comparação com os cerca de 20 euros de 2001.

Ele afirmou que a maioria da produção de haxixe albanês é exportada por terra até a Grécia, e quantidades menores são levadas em lanchas que chegam à costa italiana através do mar Adriático. EFE md/rb/rr

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