Hungria revela segredos de julgamento de líder da revolução anti-soviética

Por ocasião do aniversário de 50 anos do julgamento e execução do ex-primeiro-ministro Imre Nagy, no dia 16 de junho, os húngaros tiveram acesso pela primeira vez a esse processo realizado a portas fechadas graças a uma gravação integral e inédita.

AFP |

"Se sobrevivi à exumação, também sobreviverei a isto", declarou a alguns dias Judith Gyenes, uma elegante senhora de 80 anos, viúva do general Pal Maléter, executado em 1958 junto com Nagy por alta traição por seus respectivos papéis na revolução anti-soviética de 1956.

Judith e seus compatriotas podem ouvir agora a voz dos acusados graças à gravação integral dos debates de seu julgamento, divulgada desde segunda-feira por iniciativa da organização não governamental Open Society Archives (OSA), financiada pelo milionário George Soros, e do Instituto 1956 de Pesquisas Históricas.

Considerado quase um mártir na Hungria, Imre Nagy foi chefe de governo durante a curta revolução húngara de 12 dias contra a União Soviética, em outubro de 1956, antes da forte repressão dos tanques de Stalin.

Três semanas depois do final da insurreição foi preso pelos militares soviéticos. Após dois anos em prisões de Romênia e Hungria, Nagy foi declarado culpado por alta traição, condenado à morte e enforcado no dia 16 de junho de 1958, aos 62 anos.

A gravação das 52 horas de seu julgamento, até agora mantida nos Arquivos Nacionais, começou a ser transmitida na segunda-feira, às 09h30 locais (04h30 de Brasília), na mesma hora em que começou o processo há 50 anos.

Nagy, Maléter e o jornalista Miklos Gyimes, os três executados ao final do julgamento, foram enterrados em um primeiro momento no pátio da prisão de Budapeste e, em 1961, seus restos foram sepultados com pseudônimos em um cemitério da capital húngara.

Foi necessário esperar a queda do comunismo, em 1989, para que os três fossem recuperados e enterrados com seus verdadeiros nomes após funerais solenes.

Uma das duas últimas testemunhas do processo ainda vivas, Laszlo Regeczy-Nagy, ouviu na quarta-feira seu próprio depoimento.

"Naquela época tinha medo de dizer algo que pudesse prejudicar Nagy. Não sabia que estratégia havia escolhido para a sua defesa", disse à AFP.

"Mas quando o vi ao meu lado no tribunal, me olhou sorrindo e compreendi que meu depoimento não podia prejudicá-lo", disse Regeczy-Nagy, que na época dos fatos trabalhava na embaixada britânica e que também foi condenado a 15 anos de prisão.

A transmissão gratuita dos debates foi acompanhada durante a semana por dezenas de pessoas, reunidas na entrada do edifício da OSA.

Após a prisão de Nagy e de seus companheiros, a Hungria foi governada até 1989 por Janos Kadar.

"Os comunistas gravaram o processo para mostrar ao público como os 'culpados' haviam se 'arrependido'", afirmou Miklos Tamasi, membro da OSA.

"Mas como Imre Nagy nunca reconheceu sua culpa nem pediu para ser absolvido, as gravações nunca puderam ser utilizadas pela propaganda" do regime, afirmou Tamasi ao ressaltar que os acusados nunca tiveram a palavra durante o julgamento para se defenderem.

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