Hondurenhos divididos aguardam diálogo entre Zelaya e golpistas

Por Enrique Andrés Pretel TEGUCIGALPA (Reuters) - O presidente destituído de Honduras, Manuel Zelaya, e o governo interino que tomou o poder em um golpe de Estado aceitaram reunir-se para dialogar, criando expectativas em uma população dividida pela crise política no país.

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O presidente da Costa Rica, Oscar Arias, será a partir de quinta-feira o mediador entre as partes para buscar uma saída ao conflito, iniciado com o sequestro e expulsão de Zelaya por militares hondurenhos em 28 de junho, dia em que havia convocado uma consulta popular para abrir caminho à sua reeleição.

A crise é um desafio para o presidente norte-americano, Barack Obama, cuja promessa de melhorar as relações com a América Latina pesou em seu decidido apoio à mediação de Arias para evitar a escalada da violência em Honduras, uma das nações mais pobres do continente. O país depende da exportação de têxteis, café e bananas.

"O que quero realmente é não deixá-los sair daqui enquanto não houver um acordo", disse Arias, ganhador do Prêmio Nobel da Paz por seu empenho para pôr fim às guerras civis e conflitos militares que assolavam a América Central durante a Guerra Fria.

No entanto, tanto Zelaya como o presidente interino, Roberto Micheletti, se mostram inflexíveis em suas posições e os dois lados falam em diálogo, mas não em negociação.

"Estamos abertos a tudo, menos ao regresso de Zelaya", disse na terça-feira o chanceler interino, Enrique Ortez.

Zelaya conta com amplo apoio internacional. Países e entidades internacionais condenaram o golpe e exigiram sua restituição ao poder, apesar de ele ter contra si políticos, empresários e boa parte da população de um país muito conservador, atemorizados por sua aliança com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

"Não é negociável a restituição do presidente eleito pela vontade do povo... nem mesmo que possa existir a possibilidade de que este governo, que golpeou a democracia, possa ficar no poder sem sentido algum", afirmou na terça-feira o presidente deposto.

EXPECTATIVA EM HONDURAS

Os hondurenhos, divididos entre os dois presidentes que alegam ser legítimos e constitucionais, protagonizaram desde o dia do golpe manifestações massivas a favor ou contra Zelaya -- um empresário do setor madeireiro, moderado, que na metade de seu mandato adotou um discurso de tendência socialista.

O governo interino ficou isolado internacionalmente e foi alvo de sanções da organização dos Estados Americanos (OEA) por sua negativa de restituir Zelaya ao poder, inclusive ameaçando prendê-lo se voltar ao país e acusando-o de traição à pátria, abuso de poder e corrupção.

Zelaya, cuja aprovação havia caído ao nível de 30 por cento nas semanas precedentes ao golpe, insiste que as autoridades estão reprimindo a população e exige punição aos "usurpadores."

Os analistas veem com ceticismo a possibilidade de um acordo.

"É difícil uma mediação com êxito já que o governo golpista sabe que Zelaya pode ter de cumprir o que resta de seu mandato. O único fator que pode removê-los do poder é uma conjunção de protestos de massa e sanções econômicas reais", disse Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Investigação Política e Econômica, com sede nos Estados Unidos.

Nove dias depois do golpe, muitos hondurenhos estão irritados coma incerteza, o toque de recolher em vigor, as ruas bloqueadas por protestos contínuos e a tensão no país.

"O que queremos é que isto acabe. Com os protestos diários não se pode nem ir trabalhar, nem sair à noite. Deveriam colocar no poder alguém que não seja nem de um lado nem do outro. Alguém que pelo menos governe bem," queixou-se Vilma Barahona, enfermeira de 53 anos.

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