Honduras: modelo de Zelaya é Lula e não Chávez, diz ministro deposto

O ministro da Cultura do governo afastado de Honduras, Rodolfo Pastor, afirmou, em entrevista exclusiva à BBC, que o modelo predileto do presidente deposto do país Manuel Zelaya é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Zelaya tem sido acusado frequentemente por simpatizantes do governo interino do país de ter no venezuelano Hugo Chávez a sua principal fonte de inspiração.

BBC Brasil |

"O presidente Zelaya sempre se sentiu mais atraído pela forma de trabalhar do presidente Lula e pelo modelo brasileiro do que por qualquer outro", afirmou Pastor.

O ex-titular da Cultura deu entrevista à BBC Brasil, à BBC Mundo e à BBC News em um local de Honduras que não pode ser revelado, a pedido do entrevistado, uma vez que ele - assim como outros integrantes da administração deposta - está na clandestinidade, temendo retaliações por parte do governo interino.

De acordo com Pastor, Zelaya possui "um afeto muito profundo pelo povo pobre e um compromisso de trabalhar com esse povo. É algo que nenhum outro líder hondurenho havia explicitado, a intenção de lutar pela gente pobre deste país".

"E nisso, ele se identifica completamente com o presidente Lula", comenta.

Tanto é assim, acrescenta, "que vários conselheiros e ideólogos do presidente Lula foram enviados a Honduras para dar consultoria em programas do governo, como (o assessor especial da Presidência da República) Marco Aurélio Garcia".

Inspiração chavista
No entender de Pastor, a tentativa de atrelar Zelaya a Chávez foi exacerbada por grupos que ele acusa de controlarem os meios de comunicação do país.

"Tivemos que enfrentar um grupo de quatro pessoas que controla 90% dos jornais e 80% das transmissões de rádio e TV neste país, e essas pessoas puderam apresentar à população a sua versão do nexo entre presidente Zelaya e presidente Chávez."
O ministro afastado não nega que exista um elo forte entre os dois líderes e que foi esta ligação que fez com que Honduras viesse a integrar a Aliança Bolivariana para o Povo da Nossa América (Alba), a aliança comercial comandada pela Venezuela e que conta ainda com Antígua, Bolívia, Cuba, Equador, República Dominicana, Nicarágua e São Vicente.

"É um nexo que existe. O presidente Zelaya trouxe o presidente Chávez ao país para firmar, em um ato público, a adesão de Honduras ao convênio da Alba. E através deste convênio, o presidente resolveu problemas que são estratégicos ao país", afirma.

"O presidente resolveu o problema de abastecimento do petróleo graças a um valor preferencial oferecido pela Venezuela. A reação com o presidente Chávez era uma relação estratégica, mas nunca pudemos explicar à população que não era nada mais do que isso. Apresentou-se como se esta fosse uma relação perigosa."
Pastor nega também que a intenção do líder deposto em promover uma consulta popular, em 28 de junho, mesmo dia em que acabou sendo afastado do poder, tenha sido uma inspiração venezuelana.

"Não sei se começou na Venezuela. Desde os 2 anos de idade, fui criado nos Estados Unidos. E lá, em todas as eleições, há possibilidades de referendos sobre propostas específicas, que podem ser desde o matrimônio homossexual até o aborto. É algo perfeitamente normal desde que sou jovem. Me custa pensar que o plebiscito ou que a pergunta direta ao eleitorado seja algo inventado por venezuelanos."
Violência e guerra civil
Pastor diz que, dos ministros que estão na clandestinidade ele, provavelmente, é um dos que teria menos a temer, uma vez que não haveria mandados de prisão em seu nome. Mas, ainda assim, afirma ter receios.

"Eu tenho preocupações, é claro. Sei que já fui seguido e que pessoas já relataram ter sido detidas e perseguidas. Pretendo deixar o país. Já recebi ofertas de pessoas no exterior. E o farei, a não ser que o presidente regresse, e as coisas tomem um rumo inesperado."
Mas ele é cético de que o regresso de Zelaya, por si só, possa sanar a situação no país.

"As pessoas estão mantendo expectativas difíceis de serem cumpridas. E o nível de confrontação no país está muito elevado. A única coisa que posso antever é mais violência. Nunca se sentiu em Honduras um risco de guerra civil. Hoje, sim, existe esse perigo. Porque há uma ampla base social para as duas posições, que estão completamente polarizadas."
* Colaboraram Cecília Barría, da BBC Mundo, e Stephen Gibbs, da BBC News, em Tegucigalpa.

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