Honduras desafia pressão e presidente deposto adia volta ao país

Por Gustavo Palencia e Anahí Rama TEGUCIGALPA (Reuters) - O governo interino de Honduras desafiou nesta quarta-feira a pressão internacional e afirmou que não existe nenhuma chance de o presidente deposto Manuel Zelaya voltar ao poder, apesar do ultimato dado pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

Reuters |

O governo interino, liderado por Roberto Micheletti, declarou que Zelaya será preso se regressar ao país, e o presidente deposto acabou adiando sua volta.

"Não há a mínima possibilidade, o presidente Zelaya está fora por ordens do povo", afirmou o ministro das Relações Exteriores interino, Enrique Ortez, em entrevista à Reuters.

Na sua casa, em Tegucigalpa, Ortez acrescentou que não existe negociações com nenhum governo estrangeiro nem com organismos como a OEA sobre um eventual retorno do presidente deposto.

"Não se negocia a soberania, não estamos negociando absolutamente nada", disse o veterano político hondurenho.

Armados, um grupo de militares tirou Zelaya de casa no domingo e o obrigou a embarcar para a Costa Rica. O presidente promovia uma consulta popular em Honduras, que poderia lhe abrir o caminho para a reeleição, considerada inconstitucional pela Justiça e pelos partidos políticos.

A OEA se uniu à condenação internacional do "golpe militar" em Honduras. Num ultimato, a organização deu 72 horas para que o governo interino garanta o retorno "incondicional" do presidente "a suas funções constitucionais". Caso contrário, Honduras seria suspensa do organismo.

Em Washington, o embaixador do governo de Zelaya junto à OEA, Carlos Sosa, declarou que o secretário-geral da organização, José Miguel Insulza, indicará uma comissão para contatar o presidente interino e negociar uma saída para a crise antes que vença o prazo dado.

Zelaya, que havia anunciado o seu retorno a Honduras para esta quinta-feira, postergou a volta, ao mesmo tempo que foi para o Panamá para assistir à posse do novo presidente do país, Ricardo Martinelli.

"Os golpistas serão julgados se não houver uma ratificação o quanto antes. Se há uma possibilidade de diálogo (com o governo interino), lógico que a volta será para o fim de semana", afirmou Zelaya a uma rádio local. Depois das declarações, a rádio foi tirada do ar.

O ministro Ortez disse que se reunirá com uma missão de países da OEA que chega nesta quarta, mas afirmou que não permitirá a entrada de Zelaya. Ele seria preso, mesmo se viesse com outros líderes do continente ou com o chefe da OEA.

Insulza, junto com a presidente da Argentina e o do Equador, se ofereceram para acompanhar Zelaya no seu retorno, o que poderia aumentar a tensão no país dividido.

MANIFESTAÇÕES

Depois do apoio das Nações Unidas, da OEA, de Washington, da União Europeia e de quase todos os países da América Latina, Zelaya pediu que os seus simpatizantes se mantenham firmes nas ruas de Honduras.

"Não abandonem as ruas até conquistarmos a vitória. Estão sós, estão cercados", afirmou o presidente, em tom de ameaça, na sua primeira declaração a um meio local desde domingo.

Milhares de simpatizantes de Zelaya fizeram nova passeata nesta quarta no centro da capital hondurenha, exigindo o retorno do presidente deposto e gritando palavras de ordem contra o governo interino.

"Estamos aqui na rua e vamos estar todos os dias até o dia que o presidente legítimo regresse. Micheletti é um fantoche dos poderosos", afirmou Ramón, um universitário de 22 anos, que escondia o rosto e não quis dar o sobrenome.

O governo interino ampliou o toque de recolher até sábado e o Congresso aprovou um decreto segundo o qual algumas garantias constituicionais ficam suspensas durante o toque de recolher. O governo interino poderá deter e incomunicar pessoas por mais de 24 horas sem acusações.

Apesar de Micheletti contar com o respaldo do Congresso, do Judiciário, das Forças Armadas e dos empresários hondurenhos, a pressão internacional pela volta de Zelaya cresce. Espanha, França e Colômbia chamaram os seus embaixadores, somando-se a México, Venezuela, Cuba, Bolívia e outros países da América Central.

Não está claro se o governo interino tentará uma aproximação com os Estados Unidos, que criticaram o golpe e disseram que só reconhecem Zelaya.

Micheletti afirmou que uma comissão hondurenha em Washington está tentando explicar no Congresso norte-americano as razões para depor Zelaya, apesar de o ministro Ortez ter dito antes que não havia sido enviada nenhuma comissão aos Estados Unidos.

A crise política no país mais pobre da América depois do Haiti e da Nicarágua ainda não afetou a vital indústria têxtil nem a produção de café. Futuras sanções comerciais internacionais poderiam prejudicar a economia de Honduras.

(Reportagem Patrick Markey e Enrique Andrés Pretel em Tegucigalpa, colaboraram Susan Cornwell e Anthony Boadle em Washington, Lucas Bergman em Buenos Aires, Blanca Rodríguez em Madri e Ali Shuaib em Trípoli)

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