O Papa é fiel ao discurso da Igreja sobre o preservativo, mas suas declarações contradizem o discurso das pessoas que se dedicam à luta contra a Aids, como enfermeiras e até mesmo alguns bispos, disse o historiador de religiões Odon Vallet, em entrevista concedida à AFP.

Pergunta: O fato de o Papa expressar sua oposição ao preservativo constitui uma evolução no discurso da Igreja?

Resposta: O Papa apenas segue a linha de seu predecessor João Paulo II, que pregava a abstinência em detrimento do preservativo. Ele foi, porém, o primeiro Papa a utilizar a palavra 'preservativo'. João Paulo II se escondia atrás de metáforas.

O preservativo é, ao mesmo tempo, profilático e anticoncepcional, o que representa um duplo problema, considerado como tal pelas diversas religiões. É por isso que padres, pastores e imames se dizem desfavoráveis ao preservativo e falam em abstinência, atendo-se ao problema do anticoncepcional.

P: Que consequências podem ter as declarações do Papa?

R: Há em todas as religiões, padres, pastores e imames que constatam que a abstinência é impossível ou que um dos dois membros do casal é soropositivo e que recomendam então o preservativo. Porém, eles têm de ser discretos, o que torna difíceis as campanhas de prevenção da Aids.

As enfermeiras, e até alguns bispos envolvidos na luta contra a Aids, são contestados pelo Papa.

Os africanos são divididos sobre a questão porque antes mesmo da revelação da existência do vírus da Aids, a doença era considerada um castigo de Deus. E esta visão permanece.

P: De um modo geral, que impacto pode ter este discurso?

R: Estas declarações do Papa provocaram uma crise porque foram feitas depois de uma ameaça de excomunhão da mãe da menina estuprada pelo padrasto no Brasil (que teve de fazer um aborto), logo revogada pela CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e do caso Williamson. Elas contribuiram para aumentaram a incompreensão de alguns fiéis.

A Igreja nega a realidade sexual, sobretudo a homossexualidade, mas suas posições não têm o mesmo impacto na Europa e na África. Na Europa, os cristãos são mais tolerantes sobre estas questões. Na África, existe um forte sentimento de vergonha. É preciso lembrar que algumas décadas atrás na Europa, as "meninas-mães" eram excluídas da sociedade e as doenças sexualmente transmissíveis eram consideradas vergonhosas.

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