Hillary ganha confiança de Obama, mas não lidera política externa

Para especialistas, secretária de Estado difere de sua antecessora, Condoleezza Rice, que era voz dominante no governo Bush

Luísa Pécora, iG São Paulo |

AFP
Hillary Clinton em visita ao Equador (08/06)
O giro da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, pela América Latina nesta semana é uma mostra do papel que a ex-primeira-dama desempenha no governo de Barack Obama. Segundo analistas ouvidos pelo iG , apesar de ocupar o posto mais alto da diplomacia americana, a chefe do Departamento de Estado não lidera a política externa dos EUA – função que se concentra na Casa Branca.

Para Kim Holmes, vice-presidente para estudos sobre defesa e política externa da Fundação Heritage, um think thank americano conservador, Hillary tende a se envolver principalmente em atividades diplomáticas de rotina, como viagens ao exterior para encontros com líderes mundiais. “Ela não é a voz dominante nas grandes questões, como Irã, Oriente Médio, Iraque e Afeganistão. Esses assuntos ficam centrados na Casa Branca”, afirmou ao iG .

David Epstein, professor de Ciência Política da Universidade de Columbia, em Nova York, concorda. “Hillary toma decisões sobre as questões menores, com as quais Obama não tem tempo de lidar. Mas está claro que quem comanda a política externa é o presidente. É ele quem decide a posição do governo”, disse.

Obama nomeou Hillary como secretária de Estado em dezembro de 2008, meses depois de os dois travarem uma das mais acirradas disputas pela candidatura do Partido Democrata nas eleições presidenciais.

Cerca de um ano e meio depois, há sinais de que os dois ex-rivais desenvolveram “um bom relacionamento profissional”, diz o especialista de Columbia, mas não o tipo de relação pessoal que o ex-presidente George W. Bush tinha com sua secretária de Estado, Condoleezza Rice. “Bush e Condoleezza se falavam o tempo todo e eram as ideias dela que basicamente determinavam a política externa”, afirmou Epstein.

Apesar de as autoridades do governo insistirem que Hillary tem participação ativa em todos os debates sobre a política externa americana, analistas acreditam que o papel da secretária tenha sido aplicar a doutrina da Casa Branca, e não necessariamente criá-la.

Exemplo disso seria o giro pela América Latina. Na segunda-feira, Hillary defendeu no Peru a posição de Washington de reintegrar Honduras na Organização de Estados Americanos. Na terça-feira, repetiu no Equador o discurso conciliador de Obama, afirmando que os EUA pretendem ter uma melhor relação com a América Latina - mesmo com governos de esquerda que se tornaram amplamente antiamericanos durante a administração Bush (2000-2009).

Após visitar a aliada Colômbia nesta quarta-feira, Hillary segue para Barbados. “Obama confia na capacidade da secretária de fazer o seu trabalho. Ela tem se mostrado uma integrante leal do governo, defendendo as posições do presidente”, afirmou Epstein.

No caso das guerras do Afeganistão e do Iraque, diz Holmes, Obama divide sua liderança com o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, e com o vice-presidente Joe Biden. No questão do Oriente Médio, as negociações diplomáticas são lideradas pelo enviado especial da Casa Branca, George Mitchell. Além disso, o chefe de gabinete de Obama - judeu filho de pais que migraram de Israel para os EUA -, Emanuel Rahm, também é apontado como peça-chave na definição da política para a região.

Para os especialistas, o fato de as decisões estarem concentradas na Casa Branca se deve a uma vontade do presidente de manter o controle sobre questões importantes, e não a uma tentativa de isolar Hillary.

Das primárias a Copenhague

Durante a disputa pela indicação democrata à disputa presidencial de 2008, os então pré-candidatos tiveram debates acirrados e trocaram duras críticas. Em uma ocasião, Obama disse que a experiência de Hillary em política externa consistia em “tomar chá com líderes mundiais” durante seu período como primeira-dama. A ex-senadora rebateu dizendo que a experiência de Obama se resumia em ter vivido na Indonésia aos 10 anos.

Em uma entrevista ao jornal americano “The New York Times”, o vice-presidente Joe Biden conta que, no início do governo, servia como uma espécie de mediador entre os dois. “Hillary me dizia: ‘Como você acha que devo apresentar isso ao presidente?’ E eu dizia: ‘Apenas apresente, oras’”, contou. “Barack me dizia: ‘Ela sabe que estou gostando do trabalho dela?’. E eu dizia: ‘Apenas fale isso para ela’.”

O analista Walter Mead, do Council on Foreign Relations, afirma que Obama sabe delegar tarefas e está satisfeito com o trabalho de Hillary. “No início do mandato eles não se conheciam muito bem, além de terem passado por momentos difíceis durante a campanha”, explicou. “Aos poucos eles criaram um relacionamento forte, e a secretária vem mostrando ser uma importante parte da equipe.”

A conferência climática de Copenhague, em dezembro de 2009, foi crucial para firmar a parceria entre os dois, segundo os especialistas. No último dia da cúpula, a negociação sobre um acordo de redução de emissões de carbono parecia destinada ao fracasso, principalmente por causa da falta de consenso entre potências mundiais e países em desenvolvimento. Sem serem convidados, o presidente e a secretária entraram em uma reunião de China, Brasil, Índia e África do Sul, na qual negociaram juntos.

Ao final da reunião, os países concordaram em monitorar a redução das emissões e definiram um limite máximo para o aumento das temperaturas globais. O acordo foi considerado fraco pela comunidade internacional, mas representou uma vitória para o presidente e a secretária de Estado. “Foi uma oportunidade para tomarmos uma decisão que não estava no itinerário de ninguém”, afirmou Hillary ao “The New York Times”.

Na mesma entrevista, Hillary disse que ela e Obama, que têm reuniões semanais na Casa Branca, desenvolveram “uma comunicação muito boa”. A frequência dos encontros é baixa se comparada a de outros governos (Henry Kissinger, secretário de Estado de Richard Nixon, afirmou à revista “Newsweek” que o encontrava todos os dias quando ambos estavam em Washington), mas Hillary não se queixa do pouco acesso a Obama. “Vejo o presidente quando preciso. Falo com o presidente quando preciso”, disse.

Instinto de “falcão”

Os debates entre Hillary e Obama durante as primárias democratas também evidenciaram diferenças ideológicas em relação à política externa. Enquanto Obama dizia acreditar na possibilidade de diálogo com países como Irã e Coreia do Norte, a ex-senadora, considerada um “falcão” (termo usado nos EUA para se referir aos que defendem o uso da força nas relações políticas em vez de soluções pacíficas), defendia a pressão como forma de pressionar por negociações.

Como secretária de Estado, Hillary respeitou a agenda de Obama e, no primeiro ano de governo, participou das tentativas de negociação diplomática com o Irã. Em 2010, com o aval do presidente, subiu o tom e passou a defender a aprovação de novas sanções ao país persa, o que ocorreu na quarta-feira após meses de negociações.

A diferença ideológica entre Obama e Hillary não é motivo de atritos mas, segundo especialistas, pode explicar por que os discursos da secretária costumam ser mais incisivos. “Ela é menos liberal e tem uma visão mais dura sobre o mundo e a política externa”, afirmou Mead, do Council of Foreign Relations.

Para ele, é “natural” que os comentários de Obama sejam mais discretos. “Uma declaração do presidente tem mais significado do que uma feita pela secretária de Estado. Para Obama, é importante ‘reservar munição’ e deixar Hillary fazer o trabalho dela.”

Epstein, de Columbia, pondera que o “instinto mais combativo” de Hillary pode ser benéfico para Obama. “Para um presidente, é útil ter uma secretária de Estado que está disposta a fazer o discurso mais duro e as ameaças. Assim, ele pode usar um tom mais leve e cauteloso”, explicou.

Apoio a Israel

A secretária de Estado usou um tom duro até mesmo com Israel, país do qual é considerada uma forte partidária. Em março, Hillary ligou para o primeiro-ministro israelense, Benyamin Netanyahu, para expressar as “fortes objeções dos EUA” ao anúncio da expansão dos assentamentos judaicos em território palestino.

Na semana passada, quando o Exército israelense atacou uma frota de ajuda humanitária à Faixa de Gaza, a secretária não fez uma condenação explícita, mas afirmou que o episódio mostrava a situação “insustentável” do território palestino, que está sob bloqueio desde que o grupo radical islâmico Hamas assumiu seu controle em 2007.

Para Epstein, a declaração mostra que Israel não deve se tornar um ponto de atrito entre Hillary e Obama. “Está muito clara a importância de os EUA enviarem uma resposta única a Israel para ‘recalibrar’ a relação com o país”, disse. “O governo precisará mostrar que os laços com os judeus são fortes, mas que Israel não pode simplesmente fazer o que quiser.”

Kim Homes, da Fundação Heritage, acredita que assumir uma posição mais leve em relação a Israel só será interessante para Hillary se ela tiver a intenção de disputar novamente a presidência. “Pensando em seu futuro político, seria importante ter uma postura cautelosa, dado o poder dos judeus nos EUA”, avaliou.

Com New York Times

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