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Hazleton e a melhor vingança contra os ilegais

O prefeito nos recebeu com um grande sorriso em seu gabinete. Nas paredes, contei pelo menos quatro fotos de Louis Barletta com o presidente Bush e uma reprodução de uma pintura do presidente Ronald Reagan.

BBC Brasil |

Sua mesa de madeira estava tão limpa que era praticamente um espelho. Sua cadeira de couro parecia bastante confortável, como se convidasse a quem se senta a nunca sair dela para dar uma volta nas ruas.

Na prateleira de um armário, chamava a atenção um pequeno quadro com a curiosa frase "Sucesso é a melhor vingança".

Talvez Barletta pudesse ser melhor definido. Ele não é só o prefeito de Hazleton, Pensilvânia, no poder desde 2000, após se eleger e reeleger por três vezes.

Ele é o grande vingador dos incomodados com o crescimento da imigação ilegal nos Estados Unidos.

Desde 2006, a cidadezinha de cerca de 30 mil habitantes passou por uma revolução depois que Barletta, cansado de problemas associados com imigrantes ilegais, anunciou medidas com o objetivo de afastá-los da cidade.

Ele propôs punições para quem contrata indocumentados. Imaginou restrições para evitar que ilegais possam alugar imóveis. Fez com que a fiscalização dos documentos dos imigrantes fosse muito mais rigorosa.

E diz que, com tudo isso, a cidade ficou mais segura e em condições de promover serviços adequados a seus moradores.

Barletta, nascido e criado em Hazleton, explica que tomou a decisão de declarar guerra aos ilegais depois que viu a criminalidade associada a esses imigrantes crescer na cidade e Washington não tomou nenhuma atitude para resolver o problema.

Segundo ele, os ilegais chegaram a representar mais de 10% da população de Hazleton e representavam um gasto significativo para o município.

Por exemplo, o município tinha que gastar dinheiro demais com a polícia, para cuidar de crimes causados por eles. Esse gasto obrigava um desvio de investimento em outras áreas como educação e saúde, o que prejudicava as pessoas legalizadas.

No entender do prefeito, não era justo penalizar pessoas em situação legal que vivem em Hazleton para favorecer os ilegais.

Perguntamos ao prefeito se ele não acha injusto penalizar pessoas que estão na cidade só para trabalhar por causa de imigrantes que são criminosos e criam problemas.

"Veja, o problema é que os dois estão fora da lei. Entrar nos Estados Unidos ilegalmente é contra a lei deste país. A razão de violar a lei não implica em uma exceção para a violação da lei."
Barletta foi além e tornou o inglês a língua oficial do município. Ele defende que o inglês é a língua dos negócios e que as pessoas que querem vencer nos Estados Unidos precisam saber a língua.

Seguindo essa lógica, fortalecer o inglês, obrigando as pessoas a estudá-lo para ter acesso à máquina do Estado, seria até fazer um favor para essas pessoas.

O prefeito explica o caso de sua própria avó, uma imigrante italiana: "Se a sociedade tivesse dado a ela tudo que ela precisa em italiano, porque ela aprenderia inglês?", questiona.

Independentemente das intenções do prefeito, passear por Hazleton deixa claras duas coisas.

Primeira: as medidas causaram muito sofrimento, fecharam algumas lojas e forçaram muitas pessoas a deixar a cidade, especialmente mexicanos (ilegais).

Segunda: a cidade continua com muita gente falando espanhol, cheia de imigrantes latinos, principalmente dominicanos e legalizados. Muitos vindos de Nova York, a duas horas de carro daqui.

Carmem (nome fictício) é uma mexicana imigrante ilegal que decidiu ficar. Ela diz que o principal problema para pessoas como ela é arranjar emprego em Hazleton, já que agora todos os empregadores exigem ver os documentos da imigração.

Ela está sem trabalho há cinco meses, diz ter dificuldade de pagar suas contas e se alimentar e cogita voltar para o México assim que possível.

"Está muito difícil", diz ela. "Eu não me sinto uma criminosa, porque eu vim para cá trabalhar. Não fico pedindo ajuda em nenhum lugar."
As medidas de Barletta contra os imigrantes estão suspensas enquanto corre uma briga na justiça.

Um grupo de moradores latinos, com a ajuda de organizações de direitos civis, entrou com uma ação contra o governo municipal contestando as restrições e teve ganho de causa.

Mas a cidade apelou, e o resultado do recursos ainda não saiu e, enquanto isso não ocorrer, as medidas não vigoram.

Isso em teoria. Na prática, Carmem conta que as checagens dos documentos dos imigrantes acontecem com grande freqüência, e os indocumentados são presos sem piedade e é muito difícil encontrar moradia sem papéis.

Se Barletta é aplaudido por muitos conservadores, aparentemente é um incômodo para os pré-candidatos à Casa Branca.

Republicano, ele pediu publicamente ao companheiro de partido John McCain e aos democratas Hillary Clinton e Barack Obama que visitassem Hazleton e, na ocasião, se pronunciassem sobre o tema da imigração ilegal.

Os três pré-candidatos defendem que os imigrantes indocumentados possam ter um caminho para obter status legal e até agora recusaram o convite.

Mas outras cidades dos Estados Unidos estão analisando a experiência de Hazleton e os efeitos positivos do endurecimento da lei.

Talvez a cidade seja um tubo de ensaio do que vem por aí. O que o próximo presidente faria se isso acontecesse?

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