Harlem, do lixo ao luxo

Porque os ricos e as grandes empresas não invadem a Rocinha e outras favelas do Rio? Com certeza é uma pergunta de um mal informado, mas honesta. Dezenas de bairros pobres e perigosos de Nova York saíram do lixo para o luxo em 20 anos.

BBC Brasil |

Na década de 50 - ou foi 60? - a revista Life mandou um dos seus dos melhores fotógrafos para as favelas do Rio e revelou nossa miséria em preto e branco.

A revista O Cruzeiro revidou com um fotógrafo brasileiro no Harlem: crianças com baratas no rosto, ratos nos apartamentos, cozinhas imundas, famílias empilhadas em quartos gelados.

Nossas favelas, em especial a Rocinha, melhoraram apesar da miséria e o crime, mas o Harlem é o novo endereço dos ricos.

Quando cheguei em Nova York, minha segunda noite foi num clube de jazz na rua 125, no Harlem. Eu, um japonês e a amiga dele éramos os únicos brancos no ambiente lotado.

Fomos muito bem tratados, uma noite inesquecível, mas percebi que não era umendereço seguro. Chegar e sair, só de táxi.

No século 19, os ricos tinham casas de verão no bairro. Eram construções sólidas com muita madeira nobre brasileira revestindo as paredes. Lareiras nas salas e nos quartos, um quintal com árvores altas, mesas e churrasqueiras.

Com a construção do metrô, houve uma explosão imobiliária e faltaram compradores. Os investidores atraíram negros dos país inteiro com financiamentos baratos. Os brancos saíram.

A década de 20 trouxe uma renascença, com intelectuais, a nobreza da música negra, Billie Holiday, Duke Ellington e Count Basie em grandes clubes de jazz para platéias brancas, o sensacional Apollo, até hoje em pé, mas a recessão acabou com a festa. As casas foram transformadas em pensões baratas e o Harlem foi para o brejo.

Na década de 90 fui lá fazer uma reportagem para a TV Cultura sobre o início da invasão de brancos e negros de classe média alta. Naquela época, você comprava uma casa de três andares por US$ 100 mil, renovava por US$ 200 mil e vendia por US$ 600 mil.

Não era no Harlem inteiro, mas não se concentrava só numa área. A prosperidade da cidade e a redução do crime atraíram novos residentes, muitos deles professores da Columbia University, que fica na fronteira do bairro.

Em 2001, Bill Clinton justificou seu apelido de primeiro presidente negro dos Estados Unidos e abriu seu escritório na rua 125, a capital da cultura afro-americana nos Estados Unidos. Não foi só uma jogada política. Gigantesco escritório, ótimas vistas, aluguel barato. Supermercados e grandes lojas abriram filiais na rua e vizinhanças.

Há pouco tempo, uma amiga foi ver um apartamento de US$ 1,2 milhão e, para choque da família mineira, achou que tinha fechado o melhor negócio da vida. Dois dias depois foi informada que outro comprador tinha feito uma oferta maior. Bye bye, Harlem. Continua no Upper East Side em busca de outro apartamento no Harlem.

Agora a explosão dos ricos multiplicou. Em abril, a cidade aprovou um novo zoneamento para atrair mais comércio e prédios residenciais para a rua 125. Há resistência. Muitos residentes, além de perder seus apartamentos e lojas, acham que o a rua vai perder a cor, a alma e identidade como meca da América negra.

A maioria dos políticos do próprio Harlem votou a favor da lei e, em poucos anos, a rua 125 poderá ser uma filial da rua 42, que, como várias outras áreas de Nova York, fez a transição do lixo para o luxo nos últimos 20 anos.

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