Saud Abu Ramadan. Gaza, 21 mar (EFE).- O movimento islamita Hamas, que governa a Faixa de Gaza, está oferecendo US$ 3 mil a quem se casar com mulheres que perderam seu marido na ofensiva militar de Israel, entre dezembro e janeiro, contra o território palestino.

Segundo o movimento islamita, a medida tem como objetivo melhorar o nível de vida e garantir o futuro das chamadas "viúvas de mártires", mas a proposta em si, e as condições para quem quiser adotá-la, geraram polêmica.

O Hamas exige que os pretendentes tenham recursos econômicos e materiais suficientes para manter pelo menos duas esposas, diante da eventualidade de que já sejam casados.

Além disso, pede que sustentem e se responsabilizem pelos filhos de sua nova esposa, e que tenham "altos valores morais" correspondentes aos princípios religiosos do Islã.

Para Nadia Nasser, membro do Hamas, o propósito da medida é "encorajar os jovens a se casar com as mulheres que tenham perdido seu marido pelo fogo israelense".

A ativista do movimento islamita disse que muitas "viúvas de mártires" perderam o marido poucos meses depois de se casar, e assegurou que o casamento é a "melhor maneira de proteger e dar estabilidade a uma muçulmana".

Um dos possíveis pretendentes é Abu Saleh, simpatizante do Hamas, que atualmente é casado e tem três filhos, e que expressou sua disposição de se casar com "uma mulher cujo marido tenha morrido na guerra".

"No Islã, casar-se é sempre bom. Além disso, Deus reconforta espiritualmente o homem que coloca uma mulher sob sua custódia e cuida de seus filhos", explicou.

Ibrahim Mustafa, de 35 anos e solteiro, comentou que está há dois anos sem trabalho, mas que se não fosse o desemprego se candidataria para se casar com uma "viúva de mártir".

"Apoio a ideia. Na verdade, gosto muito dela. Mas não tenho o dinheiro necessário para manter uma família. Antes de qualqer coisa, tenho de encontrar trabalho", comentou.

No entanto, nem todos em Gaza concordam com o programa criado pelo Hamas.

Samira Abdel Aleem, diretora da União de Comitês de Mulheres, uma organização de caráter laico, disse que "este tipo de programa degrada a dignidade das mulheres palestinas, e as coloca a serviço dos homens, como sempre aconteceu".

"As mulheres não são uma mercadoria, têm o direito de escolher seus maridos", ressaltou Abdel Aleem, que pediu às autoridades islamitas que suspendam uma medida que "promove a poligamia".

A oposição de Arwa Ramadan se deve a diferentes motivos, políticos e também pessoais.

Para ela, a medida beneficia principalmente as mulheres do entorno do movimento islamita, que são maioria entre "as viúvas dos mártires".

Com 33 anos e solteira, Arwa disse ainda que "pagar dinheiro por esses casamentos dá às outras mulheres menos oportunidades de encontrar um marido".

Aproximadamente 1.400 pessoas morreram em Gaza durante as três semanas da ofensiva militar israelense.

A maioria dessas vítimas é formada por civis - idosos, mulheres e crianças. No entanto, segundo cálculos do Governo local, perderam a vida no ataque cerca de 300 homens, principalmente jovens e casados.

EFE sar/mh

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