Hamas lança campanha de aplicação radical de costumes islâmicos

Saud Abu Ramadán. Gaza, 27 jul (EFE).- O movimento islâmico Hamas lançou uma campanha para que a população de Gaza evite comportamentos que vão contra o Islã, como que todas as mulheres cubram as formas de seus corpos, dos pés à cabeça.

EFE |

A campanha tem o lema "Sim à Virtude" e tem várias dimensões em sua aplicação, incluindo a defesa do recato em todo tipo de lojas e estabelecimentos públicos.

Quatro jovens barbados apareceram nos últimos dias em uma das sedes de venda de uma conhecida empresa de telecomunicações palestina na cidade de Gaza, para pregar doutrinas islamitas, chamando a atenção de empregados e clientes.

O pregador do grupo, empregado do Ministério para Assuntos Religiosos do Governo do Hamas na faixa, falou, em voz alta, sobre uma série de comportamentos que os residentes devem seguir e expôs um cartaz no qual Satanás olhava para uma menina com um lenço, mas, ao mesmo tempo, com uma camiseta e calças justas.

"Esta é uma vestimenta 100% diabólica", disse o funcionário, sobre um tipo de roupa comum entre a população mais jovem de Gaza, inclusive a mais conservadora.

Para que não ficassem dúvidas sobre como se vestir, o funcionário advertiu que "Satã diz que a vestimenta é legal para o Islã, mas na realidade a mulher tem usar uma que cubra todo o corpo, preta, com uma túnica solta e um lenço que também cubra o pescoço".

O supervisor da campanha, Salah Abu Saqer, explicou que o objetivo é "orientar o povo sobre a boa moral e a verdadeira religião" e afirmou que os predicadores de rua não usarão a força em sua missão.

É uma campanha "amigável, baseada em conselhos e guias pacíficos", disse.

O responsável confia, no entanto, que o Governo do Hamas ratifique estes objetivos com uma lei "que, se for aprovada, será aplicada como qualquer outra".

O Hamas governa Gaza desde 2007, após enfrentar as forças leais ao presidente palestino, Mahmoud Abbas, e expulsar os dirigentes da formação nacionalista secular Fatah.

Com cartazes e camisetas, os "missionários" que participam da campanha, vestidos em sua maioria com "chilabas", vão de loja em loja, todos os dias, e dão especial atenção às que encontram fotos de celebridades e modelos.

Eles ameaçam os proprietários e pedem que mudem as imagens e retirem os manequins, "porque parecem corpos humanos sem alma e a alma é algo que só Alá pode conceder", diz Basel al-Madhun, membro de uma das patrulhas.

Sami Ajur, dono de uma loja de roupa feminina, se lamenta que os pregadores o obriguem a retirar seus manequins a força.

"Como o povo vai saber que tipo é esta loja? Esta é minha única fonte de renda", diz.

Outro vendedor, Mohammed al-Jauni, afirma que as regras sobre os manequins consistem em "colocar roupas folgadas nelas e que mostrem somente o rosto e as mãos, porque quando elas parecem sedutoras, aumentam o desejo sexual dos homens".

A nova campanha islâmica inclui também cartazes nos quais o Hamas recomenda à população que veja somente sete canais de televisão, incluindo o seu: o al-Aqsa.

Outros cartazes alertam à população contra o "amigo demoníaco" que são as drogas, o tabaco e a pornografia.

Panfletos menores advertem sobre o significado de palavras em inglês em camisetas infantis. Porco, vício ou atração são alguns dos termos traduzidos.

Além disso, a campanha dedica também uma longa explicação ao termo "bye", que, de acordo com eles, significa "que o papa te abençoe".

Outros panfletos instruem os cidadãos sobre as situações nas quais homens e mulheres não devem sentar-se juntos, como em acampamentos de verão, excursões à praia, festas e reuniões em cafeterias e universidades.

Jamil Sarhan, da Comissão Independente para os Direitos Humanos (ICHR, na sigla em inglês), com sede em Gaza, protestou contra a nova campanha e lembrou que a Lei Básica palestina "enfatiza o respeito aos Direitos Humanos e à dignidade pessoal".

Junto a outras organizações pró-direitos humanos locais luta igualmente "para conseguir que se cancele a recente decisão do Poder Judiciário do Hamas que obriga às advogadas a comparecerem aos tribunais com um uniforme islâmico específico". EFE sar-db/pd

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