Gaza, 18 jan (EFE).- O movimento islamita Hamas decidiu hoje responder com um cessar-fogo ao anúncio unilateral de Israel de suspender as hostilidades, o que possibilitou à população local o primeiro dia tranquilidade após um pesadelo de 22 dias.

Depois de mais de três semanas "encarcerados", os moradores de Gaza puderam finalmente sair às ruas para começar a avaliar os danos sofridos e recuperar os cadáveres sob os escombros dos ataques de Israel.

Às 2h locais (22h de Brasília), entrou em vigor o cessar-fogo anunciado ontem à noite por Israel, que em princípio foi contestado pelas milícias palestinas com a advertência de que não interrompediram seus ataques até que se abrissem os postos fronteiriços e as tropas do Estado judeu abandonassem Gaza.

Mas na manhã de hoje, o Hamas e o resto dos grupos armados anunciaram também um cessar-fogo de uma semana, prazo que dão ao Estado judeu para que retire suas tropas e negocie com o Egito as condições de uma trégua estável.

Parte das tropas israelenses deixou hoje o norte da faixa, onde ocorreram os combates mais intensos desde que começou a ofensiva, em 27 de dezembro.

As tropas desdobradas no sul da Cidade de Gaza recuaram, o que permitiu de novo o trânsito pela estrada Salah ad-Din, que percorre a faixa palestina do norte aos sul.

As ruas da cidade amanheceram hoje com muito mais trânsito que nas últimas semanas, nas quais muitos só saíram de suas casas em casos de emergência, para buscar alimentos, ir a hospitais ou fugir para um lugar mais seguro.

Os anúncios de cessar-fogo não interromperam, no entanto, totalmente as hostilidades, e esta tarde foi registrado o lançamento de vários foguetes contra o território israelense, mas sem deixar vítimas.

Já um agricultor palestino foi morto esta manhã por tropas israelenses no sudeste de Gaza. Ele foi baleado quando avaliava o estado de seus cultivos após a ofensiva.

Apesar destes incidentes, as equipes de emergência conseguiram trabalhar no auxílio aos feridos, e iniciaram as tarefas de remoção de escombros, o que possibilitou a descoberta de cerca de 100 corpos.

Dezenas de feridos também puderam ser atendidos após dias soterrados sob as ruínas dos edifícios destruídos pelos ataques da aviação israelense.

"Ainda há muita gente isolada e estamos tentando nos organizar com a parte israelense para que permitam ao pessoal das ambulâncias entrar em áreas mais distantes", disse à Agência Efe Moawiya Hasanin, chefe dos serviços de emergência em Gaza.

Segundo Hasanin, morreram na ofensiva mais de 1.300 pessoas, das quais 417 são crianças, 108 mulheres, 120 idosos, 14 pessoal sanitário e 4 jornalistas.

Já o número de feridos passa de 5.450, sendo dois terços deles civis, segundo o palestino.

A maioria das lojas da Cidade de Gaza estava hoje aberta, mas não para vender, e sim para remover os destroços provocados por milhares de bombardeios.

"Não conseguimos encontrar vidro nos mercados e também não há outros materiais para consertamos as vitrines", explica Ahmed Abu Sharia, proprietário de uma casa de câmbio.

"O mínimo que qualquer um sofreu foi a destruição de todas as suas janelas", disse Ateya Ghaben, que pela primeira vez em semanas voltou a sua casa, no centro da cidade.

Mariam al-Sultan, mãe de cinco filhos, não conseguiu evitar o choro quando voltou ao local onde antes da ofensiva ficava sua casa.

"Encontrei tudo destruído. Agora vamos ter de passar mais um tempo miserável na escola da ONU que nos acolheu", disse.

Enquanto a população tenta se colocar de pé, atender seus feridos e resgatar os poucos bens que restaram, o Hamas busca apresentar o cessar-fogo de Israel como um triunfo.

O movimento islamita encheu a faixa de panfletos que foram lidos com a ajuda dos megafones das mesquitas e nos quais assegura que o fim das hostilidades por parte de Israel é uma "grande vitória". EFE sar/mh

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