Haitianos recebem pouca ajuda apesar das promessas

Por Andrew Cawthorne e Catherine Bremer PORTO PRÍNCIPE (Reuters) - Os líderes mundiais prometeram grandes iniciativas de ajuda para reconstruir o Haiti, mas os sobreviventes desesperados do terremoto ainda esperavam por comida, água e remédios neste domingo.

Reuters |

Cinco dias após um terremoto de magnitude sete matar até 200 mil pessoas, as equipes de resgate internacionais remexiam os escombros dos prédios na capital devastada, Porto Príncipe, em uma corrida contra o tempo para encontrar mais sobreviventes.

Mas empecilhos logísticos impedem que o socorro alcançasse as centenas de milhares de haitianos famintos que aguardam ajuda, muitos dos quais abrigados em campos improvisados nas ruas abarrotadas de detritos e corpos em decomposição

"Estou indo para lá com o coração pesado. Esta é uma das piores crises humanitárias em décadas. O dano, a destruição, a perda de vidas são assombrosos", disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ao embarcar em um voo para o Haiti neste domingo.

A ONU alimenta 40 mil pessoas por dia e espera aumentar esse número para um milhão dentro de duas semanas, disse ele. "O desafio neste momento é coordenar a enxurrada de contribuições."

À medida que o desespero toma conta das pessoas e na ausência das autoridades, saqueadores se espalham por lojas demolidas carregando comida e tudo mais que encontram. Brigas irromperam entre grupos portando facas, picadores de gelo, martelos e pedras.

O presidente René Préval disse que 3.500 soldados dos EUA irão auxiliar os sobrecarregados soldados de paz da ONU e a polícia haitiana a garantir a segurança na capital.

"Temos dois mil policiais em Porto Príncipe gravemente afetados, e três mil bandidos escaparam da prisão (durante o terremoto). Isso dá uma ideia de como a situação é ruim", disse Préval a repórteres.

LADRÕES LINCHADOS

Moradores encontraram os corpos de ladrões linchados pela multidão ou mortos a tiros por homens que afirmavam ser policiais à paisana. Um jornalista da Reuters disse ter visto o corpo carbonizado de um homem que os locais afirmam ter sido incendiado por moradores enfurecidos que o flagraram roubando, e dois homens jovens que jaziam no chão com feridas de bala na cabeça e os braços amarrados às costas.

"Os haitianos estão até certo ponto resolvendo as coisas por conta própria. Não há cadeias, os criminosos estão à solta, não há autoridades controlando isso", disse o professor Eddy Toussaint, parte de uma multidão que observava os corpos.

Muitos haitianos deixaram a cidade a pé com malas nas cabeças ou espremidos em carros para encontrar comida e abrigo no interior.

Outros se aglomeraram no aeroporto esperando embarcar em aviões que chegavam carregados com suprimentos de emergência e saíam lotados de passageiros. O governo em estado de choque deu o controle do pequeno aeroporto para o Exército dos EUA orientar os voos de auxílio de todo o mundo.

Dezenas de nações têm enviado aviões com equipes de resgate, médicos, hospitais de campanha, alimento, remédios e outros suprimentos, mas enfrentam um gargalo no aeroporto, onde o combustível é escasso. Alguns grupos reclamaram que seus voos foram desviados para a vizinha República Dominicana, forçando-os a carregar suprimentos para o Haiti por terra.

As forças armadas norte-americanas disseram ter montado uma força-tarefa conjunta para coordenar o fluxo de ajuda para o Haiti sob o codinome "Operação Reação Unificada". Cerca de cinco mil militares já estavam envolvidos e outros 7.500 devem chegar na segunda-feira.

Uma frota de 30 helicópteros levava recursos diretamente aos haitianos, enquanto aviões dos EUA traziam suprimentos e vários navios se encontravam na costa do Haiti ou partiam em sua direção.

Nas ruas de Porto Príncipe, patrulhas policiais escassas disparavam tiros ocasionais e gás lacrimogêneo para dispersar saqueadores e a distribuição de ajuda parecia aleatória, caótica e mínima.

Centenas de caminhões levando socorro e protegidos por soldados da ONU armados deixavam o aeroporto e o quartel-general da ONU rumo a diferentes partes da cidade, mas logo eram obstruídos nas ruas entupidas de pessoas, vans carregando caixões e corpos e até bloqueios de estrada improvisados armados por sobreviventes desabrigados forçados a viver e dormir ao relento.

O Haiti é o país mais pobre do hemisfério ocidental e há décadas lida com tempestades devastadoras, inundações e crises políticas. Cerca de nove mil soldados de paz da ONU oferecem segurança desde um levante que derrubou o então presidente Jean Bertrand Aristide em 2004, mas a missão perdeu pelo menos 40 membros quando seu quartel-general veio abaixo, incluindo seus principais líderes.

Tremores secundários ainda sacodem a capital, aterrorizando os sobreviventes e levantando destroços e poeira nos prédios.

Três pessoas foram retiradas com vida de um supermercado no início deste domingo. Equipes dos EUA e da Turquia liberaram uma menina haitiana de sete anos, um haitiano e uma norte-americana dos destroços do prédio de cinco andares. Eles estavam atordoados, mas não pareciam seriamente feridos.

Caminhões lotados levam cadáveres a valas comuns escavadas às pressas fora da cidade, mas acredita-se que dezenas de milhares de corpos ainda se encontram sob os escombros.

Autoridades haitianas disseram que o saldo de mortes deve estar entre 100 e 200 mil.

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