PORTO PRÍNCIPE - Haitianos desesperados transformaram na quinta-feira parques e ruas repletos de entulho em hospitais improvisados e campos de refugiados, diante da ausência de qualquer reação perceptível das autoridades locais depois do terremoto.


O tremor de magnitude 7 destruiu o palácio presidencial, vários ministérios e a sede da missão de paz da Organização das Nações Unidas no Haiti, e agora o país enfrenta um perigoso vácuo de segurança e de governo.

AP
Haitiana Cindy Terasme grita ao ver que o irmão de 14 anos morreu nos escombros de escola em Porto Príncipe
Haitiana Cindy Terasme grita ao ver que o irmão de 14 anos morreu nos escombros da escola St. Gerard School, em Porto Príncipe


O país caribenho de 9 milhões de habitantes, o mais pobre das Américas, tem uma história turbulenta de conflitos, tensões sociais, ditaduras, instituições frágeis e catástrofes naturais devastadoras.

Sem uma operação organizada de resgate, muitos moradores de Porto Príncipe vasculham escombros com as mãos, paus ou marretas para tentar achar sobreviventes. Milhares de desabrigados começam a montar acampamentos onde for possível - o maior deles fica bem em frente ao palácio presidencial destruído.

"Olhe para nós. Quem está nos ajudando? Neste momento, ninguém", disse a estudante Jean Malesta, de 19 anos, única sobrevivente quando o apartamento onde morava desabou. Junto com ela, mais uma dúzia de pessoas ocupava uma tenda armada no parque diante do palácio onde despachava o presidente René Préval.

O governo dele, fraco e carente, parece totalmente despreparado para enfrentar a tragédia, que pode ter matado dezenas de milhares de pessoas. As autoridades estão desorientadas e sumiram.

"Até agora, não nos trouxeram nada. Precisamos de água, comida, abrigo, tudo, mas estamos por conta própria", disse Malesta, sob gritos de aquiescência de outras mulheres ao redor.

Uma grande ajuda internacional ainda não se materializou, embora muitos pequenos grupos, principalmente dos EUA, tenham se apressado para levar seu pessoal ao Haiti, de avião ou por terra, via República Dominicana.

"O problema é que, ao contrário de situações tradicionais de desastre, temos poucos parceiros locais com os quais trabalhar, porque a maioria deles teve seus prédios destruídos e está procurando seus próprios mortos e desaparecidos", disse Margaret Aguirre, da entidade Corpo Médico Internacional.

Os haitianos estão fazendo o que podem para sobreviver em meio ao caos e sem uma liderança clara, segundo Dan Erikson, especialista em América Latina da entidade Inter-American Dialogue, de Washington.

"A triste verdade é que ninguém está à frente do Haiti hoje. Este vácuo, junto com a reação robusta do governo Obama, criou inevitavelmente uma situação onde os EUA serão o tomador de decisões de facto no Haiti", acrescentou.

Até o presidente René Préval perdeu seu lar.

"Meu palácio desabou (...) Não posso viver no palácio, não posso viver na minha própria casa", disse ele na quarta-feira à CNN.

A força de manutenção de paz da ONU, que poderia ter ocupado o vazio, está contando os próprios mortos depois que sua sede foi destruída pelo tremor. A ONU disse que perdeu pelo menos 36 funcionários no país, e muitos outros continuavam desaparecidos.

(Por Andrew Cawthorne e Tom Brown - Reportagem adicional de Carlos Barria)

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