Haiti teme que epidemias se alastrem

Bogotá, 16 jan (EFE).- Os organismos de socorro não esperam muitos mais milagres como o do resgate neste sábado de uma mulher que ficou 80 horas soterrada sob os escombros do terremoto de terça-feira, por isso que agora a atenção está mais centrada em como evitar uma crise sanitária no Haiti.

EFE |

Às dificuldades para encontrar vítimas com vida como Lidovia Pierresainte, a mulher de 33 anos que após um trabalho de nove horas e meia foi salva por uma brigada do Peru e da Nicarágua, uniu-se um novo tremor, de 4,5 graus na escala Richter, que semeou outra vez o pânico e atrasou os trabalhos de resgate.

Uma mostra da precária situação na capital haitiana foi vivida durante o resgate de Perresainte, cujos socorristas deviam fazer turnos de meia hora por causa do fedor dos cadáveres de três adolescentes que estavam a seu lado, disse o nicaraguense Bernardino Bermúdez.

O ministro da Saúde haitiano, Alex Larsen, assegurou que já foram encontrados "mais de 25 mil" mortos, a maior parte dos quais foi parar em valas comuns, onde são cobertos com cal virgem e depois com terra.

Perante críticas por uma suposta intenção do Governo de queimar os corpos, Larsen não descartou a possibilidade: "Ainda não tomamos a decisão".

Seu colega de Interior, Antoine Ben-Aimé, disse à Efe que no total seriam cem mil os mortos, 70 mil deles em Porto Príncipe.

Em outras cidades como Leogane (oeste) morreram entre cinco mil e dez mil no meio da queda de 90% dos prédios, o mesmo nível de destruição de Carrefour, segundo Elizabeth Byrs, porta-voz do escritório humanitário da ONU (Ocha), "No momento em que começarmos a derrubar as casas que foram danificadas, a atmosfera será irrespirável, porque aparecerão novos cadáveres", advertiu Larsen.

A isto se soma, disse Ben-Aimé, que na capital haitiana perambulam cerca de 600 mil pessoas que ficaram sem-teto por causa da "catástrofe histórica" e "a pior situação à qual a ONU deve enfrentar", tal como asseverou hoje Elizabeth.

Sem água, sem comida e sem banho, cada um sobrevive como pode a cada dia, muitos deles recorrendo aos acampamentos que foram sendo improvisados desde terça-feira na capital do país mais pobre da América.

Um desses acampamentos fica na Praça Saint Pierre, onde cerca de dez mil haitianos vivem de mal a pior, afirmou á Efe o representante de Defesa Civil Benoit Frantz.

Ali não é estranho ver restos de excremento por algumas áreas do parque e também montes de lixo, cuja pestilência se mistura com os cadáveres em decomposição.

Para evitar que os riscos de epidemias e doenças continuem crescendo, Ben-Aimé confirmou à Efe que seu país planeja evacuações maciças.

"Em muitos casos vamos ter de proceder ao deslocamento da população, e planejamos construir acampamentos provisórios para receber as vítimas", assinalou.

Os dois ministros se referiram, além disso, ao atraso no atendimento aos feridos e o atribuíram aos graves danos nas infraestruturas e nas comunicações.

Segundo a Efe pôde comprovar, o Hospital Geral, maior centro médico do país, já começou a receber remédios, material paramédico e alimentos para os doentes, após três dias de paralisia total, apesar de seu gerente geral, Guy Laroche, ter dito que toda a ajuda "foi de ONGs".

Apesar desta e de outras críticas à desorganização governamental, incluindo afirmações de que os EUA é que estão coordenando essa tarefa, Washington afirmou que é o Governo de René Préval que comanda esses esforços.

Como parte dessas tarefas de coordenação da ajuda, Préval, que pediu para se melhorar a coordenação das equipes de resgate e sobrevoou Porto Príncipe para constatar a magnitude da catástrofe, viajará na segunda-feira a Santo Domingo para uma reunião preparatória da Cúpula Mundial pelo Haiti que se realizaria em março.

O presidente americano, Barack Obama, anunciou o "Fundo Clinton-Bush", que buscará organizar a sociedade civil de seu país nos esforços humanitários e de reconstrução no Haiti.

Além disso, a secretária de Estado de EUA, Hillary Clinton, chegou neste sábado a Porto Príncipe para levar a Préval e ao povo haitiano a solidariedade e o compromisso de Washington.

A ajuda internacional continua chegando ao terminal aéreo da capital, que já alcançou sua capacidade máxima de 90 aterrissagens e é comandado pelos EUA, após a assinatura de um "memorando de entendimento" com o Haiti.

O próximo dignatário a chegar à nação será o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, neste domingo.

Por último, o desespero que invade os sobreviventes continua degenerando em saques e roubos a transeuntes no centro de Porto Príncipe - onde entre cinco e seis mil presos fugiram após o terremoto -, sem que a Polícia intervenha, como comprovou a Efe.

eat/ma

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