Haiti sofre novo tremor; ajuda humanitária ganha força

Por Catherine Bremer e Joseph Guyler Delva PORTO PRÍNCIPE (Reuters) - Um novo terremoto voltou a atingir o Haiti nesta quarta-feira, provocando pânico entre as pessoas que acampam nas ruas da capital depois do devastador tremor da semana passada.

Reuters |

O novo sismo, inicialmente registrado como de magnitude 6,1, teve intensidade revisada para 5,9. Ele balançou prédios já danificados, mas não há relatos imediatos de mais danos. Com medo de tremores secundários, que são comuns após grandes abalos sísmicos, milhares de pessoas dormem nas ruas desde o dia 12.

"Foi muito forte. Cada novo tremor é assustador. Sentimos bem aqui (aponta para o estômago), porque depois da terça-feira da semana passada, nunca sabemos quão forte será", disse Lenis Batiste, que acampava em cima da grama com duas crianças.

O Serviço Geológico dos EUA disse que o epicentro do terremoto de quarta-feira ocorreu 60 quilômetros a oeste-sudoeste da capital Porto Príncipe.

Integrantes do batalhão brasileiro que compõem a missão de paz da ONU no Haiti, a Minustah, já avaliavam possíveis desabamentos de escombros deixados pelo terremoto da semana passada.

"As coisas começaram a tremer. Ficamos realmente com medo. As pessoas saíram às ruas", disse Victor Jean Rossiny, estudante de direito de 24 anos. "Não temos nada aqui. Nem água".

Enquanto isso, a preocupação com saques e violência diminuiu graças à presença de tropas dos EUA que garantem a segurança e distribuem água e ajuda alimentar, e pelo fato de muitos desabrigados terem atendido ao conselho do governo de buscar abrigo fora de Porto Príncipe.

O atendimento médico, o sepultamento de cadáveres, as questões de abrigo e saneamento e a distribuição de água e comida continuam sendo prioridade para as operações internacionais de auxílio, disseram funcionários da ONU uma semana depois da tragédia.

Embora ainda haja a necessidade de escoltas militares para a entrega de mantimentos, a ONU disse que os problemas de segurança se concentram em áreas que já eram consideradas de alto risco mesmo antes do terremoto. Cerca de 4.000 criminosos fugiram de prisões que desabaram.

"A situação geral em Porto Príncipe continua estável, com uma violência limitada, localizada, e saques ocorrendo", disse o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU.

Helicópteros militares Black Hawk, dos EUA, pousaram na terça-feira no terreno do devastado Palácio Presidencial haitiano e soldados começaram a descer e a descarregar suprimentos, atraindo a atenção de uma multidão desesperada por ajuda.

"Os suprimentos estão começando a chegar para as pessoas", disse o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, durante visita à Índia. Ele disse esperar que a presença de tropas norte-americanas ajude a evitar a violência.

NAVIO-HOSPITAL A CAMINHO

Cerca de 12 mil militares dos EUA estão no país, em navios na costa ou a caminho. O navio-hospital USNS Comfort deve chegar à área na quarta-feira, o que permitirá a realização de cirurgias complexas.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, principal crítico de Washington na América Latina, acusou os EUA de estarem "ocupando" o Haiti sob o pretexto de prestar ajuda.

Já o presidente haitiano, René Préval, disse que as tropas dos EUA ajudarão os integrantes da Minustah (força de paz da ONU sob comando do Brasil) a garantirem a ordem pública.

Para tentar acelerar a chegada de ajuda e controlar a situação, o Conselho de Segurança da ONU autorizou nesta semana por unanimidade o envio temporário de 2.000 soldados e 1.500 policiais adicionais para a Minustah, que já tinha 9.000 homens no país caribenho.

"Sabemos que o mundo quer nos ajudar, mas já faz oito dias e ainda não vi comida ou água para a minha família", disse o sobrevivente Gille Frantz, vendo o desembarque de tropas norte-americanas perto do devastado palácio presidencial.

Os soldados chegam também a outras cidades atingidas pelo terremoto nos arredores da capital, como Leogane, a oeste, e Jacmel, na costa sul, para patrulhar e distribuir ajuda.

Em Leogane, epicentro do terremoto inicial, a falta de instalações médicas avançadas impediu muitos pacientes em estado grave de serem submetidos a cirurgias que poderiam salvá-los.

"Mesmo antes de todo este drama os hospitais aqui mal funcionavam", disse Joel Beaubrun, olhando soldados dos EUA lançarem mantimentos do ar. "Dá para imaginar como está agora."

AMPUTAÇÃO COM SERROTE

A entidade Médicos Sem Fronteiras disse que um avião cargueiro com 12 toneladas de suprimentos médicos foi impedido de pousar no congestionado aeroporto de Porto Príncipe em três ocasiões desde domingo, e que cinco pacientes morreram pela falta de tais suprimentos.

"Fomos forçados a comprar um serrote no mercado para continuar as amputações", disse Loris de Filippi, que coordena a emergência no Hospital Chocal, mantido pelo grupo na favela de Cité Soleil.

Em nota, os Médicos Sem Fronteira disseram que "drogas para o atendimento cirúrgico e equipamentos como máquinas de diálise são urgentemente necessários, mas os problemas de acesso para as cargas estão causando demoras na entrega".

As autoridades do Haiti dizem que o terremoto matou entre 100 mil e 200 mil pessoas, e que 75 mil corpos já foram sepultados em valas comuns.

Até agora as temidas epidemias ainda não apareceram, embora muitos feridos estejam vulneráveis a tétano e gangrena, e os hospitais estejam sobrecarregados.

Mas alguns sinais de normalidade começam a aparecer no país mais pobre das Américas. Funcionários da ONU disseram que milhares de sobreviventes estão buscando refúgio junto a parentes e amigos em áreas mais seguras no interior. A empresa de cruzeiros marítimos Royal Caribbean retomou suas escalas na praia particular que possui em Labadee, na costa norte do país.

Nas ruas da capital, ambulantes voltaram a vender frutas, legumes e carvão, embora dezenas de milhares de sobreviventes ainda implorem ajuda, e os mantimentos básicos sejam raros e caros.

Os bancos locais permanecem fechados, mas a ONU disse que há planos para que eles abram 30 a 40 pontos de distribuição, onde os clientes poderiam ter acesso às suas contas.

O preço dos combustíveis duplicou, e há longas filas de carros, motos e pedestres com galões em postos de gasolina. Policiais patrulham alguns deles.

(Reportagem adicional de Patrick Markey, Carlos Barria, Andrew Cawthorne, Catherine Bremer, Tom Brown e Natuza Nery em Porto Príncipe, Stephanie Nebehay em Genebra, Lesley Wroughton e Tabassum Zakaria em Washington)

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