Haiti e agências humanitárias divergem sobre o que fazer com desabrigados

Javier Otazu. Porto Príncipe, 25 jan (EFE).- Com o fim dos trabalhos de resgate após o terremoto no Haiti e a garantia do atendimento médico mais urgente, resta o desafio de alimentar e dar teto aos desabrigados, mas o Governo haitiano e as agências da ONU têm sérias divergências neste ponto.

EFE |

Em declarações à Agência Efe, fontes da Organização Internacional de Migrações (OIM), entidade da ONU que administra grandes deslocamentos de população por guerras ou desastres naturais, a proposta do Governo do Haiti de montar dois grandes acampamentos para os 610 mil desabrigados da capital, Porto Príncipe, não é realista.

O Governo privilegiou a construção de dois acampamentos na periferia de Porto Príncipe e, por isso, não quis distribuir entre os desabrigados as tendas recebidas de organismos humanitários para não perpetuar sua presença nestes locais, declarou à Efe o ministro do Interior haitiano, Antoine Bien-Aimé.

As fontes da OIM, que pediram anonimato, apontaram que esta opção não é realista porque parece solucionar um problema urgente - o da alimentação, difícil de distribuir nos mais de 50 acampamentos improvisados atualmente existentes na capital -, mas cria muitos outros.

Segundo elas, não há fundos para instalar esses dois enormes acampamentos, nem capacidade externa para alimentar tanta gente.

Além disso, um acampamento grande deve estar ligado a algum local ou atividade que gere renda, para não perpetuar o assistencialismo ao qual o Haiti ficou acostumado na última década.

A OIM e as agências internacionais citam outras soluções: incentivos para os haitianos que não perderam suas casas e podem alojar parentes ou vizinhos, e a reforma de casas que não desmoronaram, para que seus ocupantes possam retornar e transformar alguns dos acampamentos atuais em algo mais estável.

Não se pode esquecer que os desabrigados se instalaram em refúgios que quase sempre estão perto de suas casas ou no que restou delas, e não convém romper esse vínculo, segundo as fontes.

Além disso, a temporada de chuvas e possíveis furacões está perto, e um acampamento construído sobre terra logo se transformaria em um imenso lamaçal e em um local perfeito para a propagação de doenças.

Até o momento, segundo números do Governo, 131 mil pessoas abandonaram a capital haitiana e seguiram rumo a lugares do país menos afetados pelo terremoto, principalmente para cidades do norte como Gonaïves e Port-de-Paix.

O êxodo foi alimentado pelo próprio Governo, que subvenciona a gasolina necessária para os ônibus que transportam todos aqueles que tenham familiares no interior.

Também houve um êxodo marítimo rumo à cidade de Jeremie, em fluxo que caiu bastante nos últimos dias.

Atualmente, haitianos procuram as embaixadas de países ricos e escritórios de emissão de passaportes, onde se amontoam centenas de pessoas ansiosas para deixar o país.

No aeroporto de Porto Príncipe, o supervisor de Migrações, Napoleon Guy Gerald, explica que quase sete mil haitianos deixaram o país nos últimos dias, mas prevê que ainda haverá muitas filas nas embaixadas.

As embaixadas de Estados Unidos e Canadá são os destinos preferidos. A cada dia, milhares de pessoas alegam ter pais, filhos ou irmãos nesses países e pedem um visto para viajar para as nações onde acreditam que nada falta, principalmente trabalho.

A embaixada da França também recebe centenas de pessoas em seu prédio semidestruído, mesmo diante da impossibilidade de emitir qualque tipo de documento.

No entanto, a miséria leva o solicitante a voltar no dia seguinte para pedir seu visto para o Primeiro Mundo - e às vezes até para o Terceiro.

Em meio ao desespero, um jovem pergunta: "É verdade que no Senegal dão asilo aos haitianos?".

No último dia 12, um terremoto de 7 graus na escala Richter atingiu o Haiti. Seu epicentro foi localizado a apenas 15 quilômetros da capital do país, Porto Príncipe.

Pelo menos 21 brasileiros morreram na tragédia, sendo 18 militares e três civis, entre eles a médica Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, e Luiz Carlos da Costa, o segundo civil mais importante na hierarquia da ONU no Haiti. EFE fjo/bba

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