Haiti: ciência não explica sobrevivência tão prolongada

Como pode uma vítima de terremoto resistir por dias sem água ou comida? Os sobreviventes do Haiti, retirados com vida após dias embaixo dos blocos de concreto que desabaram na região da capital, Porto Príncipe, são exemplos do quanto a ciência ainda não tem total conhecimento sobre as reações do corpo humano em condições extremamente adversas.

Fernanda Aranda, iG São Paulo |

EFE
Haitiana ficou 80 horas presas nos escombros

Haitiana ficou 80 horas nos escombros, mas foi resgatada com vida

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Traumatizado (SBAIT), Hamilton Petry de Souza, ainda que reações instintivas garantam aumento da sobrevida ¿ há relatos de pessoas que beberam urina e comeram terra ¿ não é esperado encontrar vida em meio aos escombros após 72 horas da catástrofe, quando não há água e alimentos disponíveis. Apesar de não existir explicação objetiva para os casos de resgate tardios noticiados, o médico aponta algumas possibilidades.

É provável que sejam pessoas saudáveis, jovens, que não conviviam com nenhuma doença crônica antes do terremoto, afirmou Souza. Por comparação, podemos dizer que elas ficam embaixo dos escombros quase que em estado de hibernação. Com o metabolismo inerte, a demanda energética e o gasto calórico são baixíssimos. Mas, de fato, são casos excepcionais.

Segundo boletim divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), desde a data do terremoto até o último domingo 70 pessoas foram resgatadas com vida dos escombros. Os casos mais dramáticos, após três dias da catástrofe, provavelmente têm em comum características como ausência de sangramentos intensos ou esmagamento de membros e órgãos ¿ condições que impedem a sobrevivência por tanto tempo. Sorte é a melhor definição, classifica Alexandre Marcolla, médico especialista em trauma do Hospital Cristo Redentor (referência de atendimentos do tipo) de Porto Alegre.

Ausência de pesquisas

A carência de embasamento científico para explicar os sobreviventes do Haiti, ponderam os especialistas, se deve ao fato de que é quase impossível fazer pesquisa sobre o assunto. Por sorte, tragédias desse porte não acontecem com freqüência para que um número significativo de vítimas seja estudado e mapeado a ponto de produzir informações aplicadas em grande escala.

Existe também um limite ético para fazer estudos do tipo com animais. Não é indicado submeter animais a tantos dias de privações de comida e água, por exemplo, explica o presidente da SBAIT.

Marcolla acrescenta que, em números absolutos, os sobreviventes do Haiti podem até representar recordes e mudar os paradigmas de quanto tempo os humanos resistem às privações de água e comida. Mas temos que levar em consideração que em quantidade proporcional os que sobreviveram podem nem representar uma taxa tão grande, já que a tragédia foi em grande escala, afirma o médico.

Especialistas da medicina de todo planeta, inclusive do Brasil por meio de convocação da Associação Médica Brasileira (AMB), estão migrando para o Haiti com dupla missão. Primeiro, precisam tentar garantir a sobrevivência dos sobreviventes. É fundamental um acompanhamento próximo. Por vezes, a sobrevida é na retirada dos escombros, mas durante o quadro evolutivo, a pessoa não resiste às complicações clínicas, esclarece Souza. Isso é agravado em um cenário degradado, já que poucos hospitais no Haiti não foram destruídos.

Além de amenizar a falta de mão de obra na saúde, os médicos de todo mundo podem, a longo prazo, reunir mais evidências sobre os mecanismos de sobrevivência do corpo humano vivenciados na tragédia do Haiti. Segundo a AMB, do Brasil, já estão a postos especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Sociedade Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a ONG Expedicionários da Saúde, o Grupo de Resgate e Atendimento a Urgências da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Comitê de Cadeia Produtiva da Saúde).

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Haitiana é resgatada com vida após passar 80 horas soterrada

16/01 - 09:15 - EFE

EFE - v1

PORTO PRÍNCIPE - Após passar 80 horas soterrada por escombros de um edifício, uma haitiana foi resgatada com vida e em bom estado de saúde por membros da Defesa Civil do Peru e da Nicarágua neste sábado.

EFE
Haitiana ficou 80 horas presas nos escombros

Haitiana ficou 80 horas presas nos escombros

Os membros da força de resgate estavam presos no trânsito quando um homem pediu que eles revirassem sua casa, em um beco sem saída. Uma mulher disse que de um edifício próximo saíam vozes de pelo menos duas pessoas.

Primeiro, a brigada regatou uma senhora de 58 anos. Esta, que foi tirada do meio dos escombros de um prédio de cinco andares, deu o alerta: mais quatro mulheres estariam sob a massa de tijolos, concreto e ferro retorcido.

Foi aí que começou uma busca desesperada. Lidovia Pierresainte, de 33 anos, cozinheira de uma casa onde viviam três adolescentes, foi encontrada vida. Já as jovens para quem trabalhava não foram achadas. As equipes acreditam que elas estejam mortas, a julgar pelo silêncio e o forte cheiro que emanava dos cômodos que ocupavam.

Com o rosto branco de poeira e pó de gesso, Lidovia foi encontrada presa da cintura para baixo por uma porta de aço, que amorteceu a queda do teto sobre o seu corpo. Aparentemente bem, ela movimentava as mãos e se expressava com clareza enquanto era resgatada.

No socorro à mulher também trabalharam bombeiros colombianos e guardas espanhóis. Primeiro, o grupo de socorristas tentou levantar a porta de aço com macacos hidráulicos. Depois, decidiram cortar a estrutura. Nessa hora, Lidovia teve de suportar uma chuva de faíscas e os escombros tremendo.

Nove horas e meia depois, a haitiana foi tirada de baixo da porta e, com o máximo cuidado, colocada em uma maca. Jornalistas e socorristas aplaudiram o resgate. Eram 2h de sábado e as pessoas trabalhavam desde as 10h de sexta-feira.

Lidovia saiu consciente, disse que sentia bem e não tinha nenhum osso quebrado. Ela não sabia o destino de seus quatro filhos, não tinha consciência de que havia passado mais de três dias soterrada e nem de que toda a cidade de Porto Príncipe havia sido destruída.

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