Dacar, 28 jun (EFE).- Em um dia calmo, Guiné-Bissau votou hoje para escolher o presidente que sucederá João Bernardo Vieira, assassinado em março, após uma campanha que poderia ter terminado em caos depois dos assassinatos de um dos candidatos e de um ex-ministro do Governo.

Vieira foi morto a tiros por um grupo de soldados em 2 de março, aparentemente como vingança pela morte no dia anterior em um atentado com carro-bomba do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Guiné-Bissau, o general Tagme Na Wai.

Os incidentes deixaram a Guiné-Bissau, um dos Estados mais instáveis e pobres de África Ocidental, em uma situação de confusão total e ameaçaram levar o país de volta à série de golpes militares que o caracterizaram desde sua independência de Portugal, em 1974.

Onze candidatos participaram da corrida eleitoral depois do assassinato no último dia 5 do postulante independente Baciru Dabó, cometido por militares que o acusaram de participar de uma suposta conjuração para tomar o poder por meio de um golpe de Estado.

Além disso, outro candidato se retirou da disputa devido à falta de segurança pessoal.

Ainda no dia 5 de junho, foi assassinado por militares o ex-ministro da Defesa do país Helder Proença, enquanto o ex-primeiro-ministro guineense Faustino Fudut Imbali foi baleado também por um grupo de soldados.

Ambos foram acusados pelo Governo de estar envolvidos na suposta tentativa golpista.

Apesar da violência que permeou a campanha, o dia de votação transcorreu sem contratempos e começou no horário previsto (7h locais, 4h de Brasília), tanto na capital, Bissau, como no interior do país, onde dezenas de pessoas formaram filas desde cedo nas zonas eleitorais.

Malam Bacai Sanhá, candidato do governante Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e Kumba Ialá, líder do Partido da Renovação Social (PRS), despontam como os favoritos neste pleito.

Ambos se enfrentaram em 2000 em um segundo turno vencido por Yala, cujo mandato foi interrompido por um golpe de estado militar em 2003.

Henrique Rosa Pereira, um empresário e ex-presidente interino de 2003 a 2005, se apresentou como independente "com possibilidade de surpreender", segundo alguns comentaristas.

Por sua parte, o ex-primeiro-ministro Aristides Gomes, do Partido da Reforma da Independência para o Desenvolvimento (PRID), é considerado o candidato decisivo no caso de um segundo turno entre os dois aspirantes mais votados caso nenhum alcance mais de 50% da preferência do eleitorado.

Após votar na capital, o presidente interino da Guiné-Bissau, Raimundo Pereira, pediu para que cidadãos do país o façam "em massa" ao lembrar da importância destas eleições para o futuro deste Estado, imerso há mais de uma década em uma profunda crise política.

Pereira disse à imprensa regional que a prioridade do presidente que vier a ser eleitor deve ser "o diálogo para favorecer a reconciliação nacional".

Cerca de 150 observadores internacionais supervisionam a votação dos estimados 600 mil eleitores em mais de 2.500 colégios eleitorais abertos em todo o país.

Após o fechamento das, começará imediatamente a apuração dos votos, embora o anúncio dos resultados possa demorar vários dias.

Os observadores políticos questionaram a atitude dos militares frente ao pleito. Entretanto, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, capitão-de-fragata Zamora Induta, assegurou na semana passada que as mesmas são "totalmente neutras" e que não favorecem nenhum dos candidatos.

Outra fonte de inquietação é o papel cada vez mais influente do narcotráfico neste pequeno país africano, transformado em centro de passagem de cargas de cocaína da América do Sul para a Europa, segundo o Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC, em inglês).

A delegação da UNODC na África Ocidental, com base em Dacar, denunciou em um relatório recente que militares e políticos do alto escalão de Guiné-Bissau estão envolvidos com o tráfico de drogas.

EFE st/bba

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