Guiné-Bissau no caos após mortes de presidente e chefe militar

Dacar, 2 mar (EFE).- Os assassinatos do presidente da Guiné-Bissau, João Bernardo Nino Vieira, e do chefe do Estado-Maior do Exército, general Tagme Na Wai, colocaram o país, um dos mais instáveis e pobres de África Ocidental, em uma situação de confusão e um futuro até mais incerto.

EFE |

Vítima de um atentado a bomba que derrubou parcialmente a sede do Estado-Maior, o general Tagme Na Wai morreu na noite de domingo, enquanto Vieira foi assassinado nesta madrugada por um grupo de militares que o balearam quando ele tentava fugir da residência presidencial em Bissau, capital do país.

Segundo os comentaristas, os homicídios cometidos entre ontem e hoje não foram mais do que o desenlace de uma profunda rivalidade entre Vieira e Tagme Na Wai, que nos últimos meses haviam travado relações muito tensas.

Na Wai denunciou em janeiro a guarda do presidente da ex-colônia portuguesa de ter tentado matá-lo, ao abrir fogo contra seu veículo quando ele passava em frente ao Palácio Presidencial.

Já em 23 de novembro do ano passado, um grupo de militares atacou durante a noite a residência de Vieira, em um atentado que matou duas pessoas.

A União Africana (UA) e a Comunidade Econômica dos Estados de África Ocidental (Cedeao) condenaram energicamente os assassinatos.

Em comunicado emitido em Adis-Abeba (Etiópia), o presidente da Comissão da UA, Jean Ping, afirmou que "estas mortes violentas ocorrem em um momento de renovados esforços da comunidade internacional para apoiar a construção da paz na Guiné-Bissau e a consolidação dos avanços no processo político do país após as eleições legislativas realizadas em novembro de 2008".

Por sua vez, o presidente da Comissão da Cedeao, Mohammed Ibn Chambas, afirmou de Abuja, capital federal da Nigéria e sede da organização regional, que os atentados na Guiné-Bissau são "o assassinato da democracia" no país.

O presidente da Nigéria e titular de turno da Cedeao, Umaru Yar'Adua, disse por sua vez os assassinatos como "horríveis atos que solapam a democracia, a paz e a estabilidade da Guiné-Bissau", um dos 15 membros do organismo.

Em Dacar, o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, solicitou um minuto de silêncio durante o ato inaugural de uma conferência preparatória do Festival Mundial das Artes Negras (Fesman), previsto para 2010 na capital senegalesa.

Wade anunciou ainda que a viúva do presidente, Isabel Vieira, ferida no ataque em que morreu seu marido, encontra-se refugiada na sede da ONU em Bissau, e viajará em breve para Dacar.

Enquanto isso, o Estado-Maior do Exército da Guiné afirma de Bissau que "as forças armadas respeitam a constituição vigente no país", o que significa a manutenção das instituições, incluindo o atual Governo, e a convocação de novas eleições em três meses.

Segundo as leis da Guiné-Bissau, o presidente do Senado, Raimundo Pereira, assumirá interinamente a Presidência até estas eleições.

As autoridades militares da Guiné-Bissau ordenaram o fechamento da fronteira do país com o Senegal e o reforço do dispositivo de segurança no alerta máximo decretado pelas forças armadas.

Segundo as emissoras de rádio regionais, Bissau havia recuperado a tranquilidade ao meio-dia, embora seus habitantes permaneçam reclusos em suas casas, em cumprimento às ordens dos militares.

O presidente Vieira ocupou durante quase 23 anos o poder, que recuperou em 2005, após ganhar as eleições, pouco depois de retornar de um exílio de seis anos em Portugal.

Dois anos de guerra civil e um golpe de estado militar protagonizado pelo então chefe do Estado-Maior, o já falecido general Ansoumana Emane, haviam afastado Vieira da Presidência em 1999.

Desde sua independência de Portugal, em 1974, a Guiné-Bissau sofreu uma série de golpes de estado e confrontos entre facções rivais do Exército.

Além disso, o país transformou-se, nos últimos anos, em rota do tráfico de cocaína procedente da América do Sul com destino à Europa. EFE st/jp

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