Guerrilha maoísta mede força nas urnas do Nepal após 10 anos de luta armada

Manesh Shrestha Katmandu, 9 abr (EFE).- Pela primeira vez desde 1991, e após uma década de luta armada, a ex-guerrilha maoísta mede forças nas urnas nas eleições desta quinta-feira, nas quais concorre com as mesmas legendas com as quais assinou um acordo de paz, sem que as pesquisas outorguem maioria clara a nenhum partido.

EFE |

Dos mais de 50 partidos políticos que disputam espaço nas urnas sairão os representantes das 601 cadeiras da Assembléia Constituinte encarregada de ratificar a "abolição" da monarquia e de preparar uma nova Carta Magna para o país.

Junto com os sete partidos que assinaram um acordo de paz em novembro de 2006 - os maoístas e a aliança que estava no Governo -, uma nova força política busca seu espaço: os grupos representantes das minorias étnicas do sul do país.

O Nepal já viveu três eleições gerais desde que a democracia multipartidária foi introduzida no país, no início da década de 1990.

O Partido Comunista do Nepal-Maoísta (CPN-M), braço político da guerrilha que travou um conflito de dez anos e no qual morreram 13 mil pessoas, não disputa eleições desde 1991, quando foi a terceira legenda mais votada, embora tivesse obtido apenas nove cadeiras de um total de 205 em virtude do sistema eleitoral em vigor.

"Essas eleições são importantes para averiguar qual é o poder do CPN-M" agora, após promover uma guerra e assinar a paz, afirma Narayan Wagle, editor do jornal mais lido do Nepal, o "Kantipur".

Os maoístas asseguram que vão obter maioria se as eleições forem "livres e justas", e ao mesmo tempo ameaçam rebelar-se em caso de derrota, apesar das pesquisas não garantirem um vencedor claro.

Nesta quinta, os nepaleses nomearão seus representantes na Constituinte mediante um sistema eleitoral misto, que combina a eleição majoritária (240 cadeiras) com o voto proporcional (335), além dos 26 deputados que serão nomeados por um gabinete especial.

De acordo com analistas, os maoístas obterão melhores resultados pelo sistema proporcional, mas isso dependerá também da possibilidade de serem capazes de roubar votos do Partido Comunista do Nepal-Marxista-Leninista Unido (CPN-UML).

O CPN-UML conta com maior apoio dos eleitores, segundo uma pesquisa divulgada em janeiro, seguido pelo Partido do Congresso Nepalês (NCP), do primeiro-ministro, Girija Prasad Koirala, e os próprios maoístas, embora nenhum pareça ter condições de ostentar uma maioria suficiente.

Além disso, as eleições transformarão em números o apoio recebido pelos partidos de caráter étnico do sul do país, que se fortaleceram no último ano com a formação de várias greves e protestos que reivindicavam uma maior autonomia.

No sul, reduto tradicional do NCP, se concentram 40% dos 17,6 milhões de eleitores do país.

A região montanhosa do país é palco de confrontos quase diários entre militantes das duas legendas comunistas, e na parte sul choques envolvem também simpatizantes do NCP contra regionalistas.

O resultado das eleições será fundamental para definir o futuro do Nepal, e não só para acabar com o dilema entre monarquia e república, como também para configurar o Estado, de forma centralizada ou federativa.

Os maoístas propõem um sistema presidencialista, enquanto o NCP é favorável a um primeiro-ministro eleito pelo Parlamento com um presidente cerimonial. Já o CPN-UML opta pela escolha do primeiro-ministro por meio de sufrágio direto.

Apenas um partido de peso aposta decididamente pela monarquia: o Partido Nacional Democrático (RPP), que destaca o papel do rei como símbolo de unidade nacional em um país diverso como o Nepal.

A idéia de uma república é tão forte que outros dois pequenos partidos monárquicos preferiram pedir que sejam os cidadãos, em um plebiscito, os responsáveis por decidir o futuro da monarquia. EFE ms-daa/fr

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