Guerra contra drogas aumenta ação de traficantes no México

A cidade de Tijuana, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, é um dos principais focos da guerra travada pelo governo mexicano contra o narcotráfico, mas o esforço para impedir que as drogas cheguem ao país vizinho tem tido conseqüências inesperadas para o local. Nas ruas, é possível perceber a presença contínua das autoridades, principalmente dos soldados que patrulham os bairros em veículos blindados.

BBC Brasil |

Esses soldados fazem parte de um grupo de 25 mil que o presidente Felipe Calderón empregou ao redor do país a partir de 2006 para combater os poderosos cartéis de drogas.

Segundo as autoridades americanas, o fluxo de drogas do México para os Estados Unidos movimenta cerca de US$ 14 bilhões ao ano. Grande parte dessa mercadoria ilegal passa por Tijuana, um dos pontos de passagem mais usados ao longo da fronteira.

As autoridades mexicanas dizem que a presença de soldados nas ruas e os avanços obtido nos controles fronteiriços nos últimos anos têm contribuído para uma diminuição da quantidade de substâncias ilícitas, como a cocaína e a maconha.

Mas, vendo que o tráfico para os Estados Unidos está ficando cada vez mais difícil, os poderosos cartéis, como o da família Arellano Félix, começaram a explorar de maneira mais intensa o mercado interno.

''Vendinhas''
"Já existem mais de 20 mil 'vendinhas' - como nós chamamos aqui os pontos de venda clandestinos. São os cartéis que não conseguiram vender nos Estados Unidos e agora tentam vender por aqui", disse o ativista de direitos humanos Víctor Clark Alfaro, à BBC.

Alfaro anda pelas ruas da cidade acompanhado de um guarda-costas desde os anos 90, quando foi ameaçado de morte depois de publicar um relatório no qual destacava a existência de vínculos importantes entre alguns funcionários do governo e os cartéis de droga.

"Estima-se que existam em Tijuana cerca de 200 mil dependentes de drogas, o maior número per capita do país", afirma.

Muitas das pessoas que se tornaram viciadas nos últimos anos, milhares são jovens. Alguns deles chegam a colaborar na venda de drogas na rua.

''Narconiños''
Esse aumento no número de jovens dependentes também pode ser visto nos centros de reabilitação.

"Eu vi um aumento de mais de 300% no número de crianças que são enviadas pelos tribunais ou que nos procuram voluntariamente", disse José Ramón Arreola, do centro de reabilitação de usuários de drogas de Tijuana, CIRAD.

Segundo Arreola, os menores, alguns de apenas oito ou nove anos, se transformaram em um grupo importante para os cartéis, não apenas como consumidores, mas também como vendedores.

"Eles usam as crianças para vender a droga na rua porque elas chamam menos a atenção dos policiais", afirmou.

Um jovem de 13 anos que se identifica apenas como Nancy conta que começou a vender drogas na rua para conseguir dinheiro para comprar o que precisava como usuária de drogas.

"Estive exposta a tiroteios entre o traficante de drogas para o qual trabalhava e grupos rivais que tentavam se apoderar das zonas da cidade que ele controlava", contou.

Segundo as autoridades, cerca de 3 mil pessoas já morreram em episódios desse tipo, supostamente ligados ao narcotráfico, neste ano. Dessas, 300 mortes se registraram na cidade de Tijuana.

Fim da inocência
Para Odilón García, jornalista que trabalha para a rede de TV Televisa, o clima de violência existente na cidade está transformando toda uma geração de jovens.

Ele contou que, uma vez, conheceu um jovem que se mostrou muito entusiasmado em encontrar um jornalista de TV. Mas parecia ainda mais entusiasmado pelo conteúdo da história que García cobria - a decapitação de quatro pessoas. Segundo o jornalista, o garoto falava do caso como se fosse algo divertido.

Para ele, essa reação foi um sinal de uma preocupante perda da inocência, não apenas desse jovem, mas de toda uma geração.

García acha que o emprego de soldados para combater os narcotraficantes deve ser uma estratégia temporária e afirma que a verdadeira solução está em uma mudança na maneira de viver no México.

"Vamos precisar de um conhecimento mais profundo da nossa realidade. Essa sim será uma luta importante", concluiu.

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